Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Castelos de Letras

Em torno das minhas leituras!

Castelos de Letras

Em torno das minhas leituras!

#233 STEINBECK, John, O Inverno do Nosso Descontentamento


"Now is the winter of our discontent;Made glorious summer by this sun of York"


Se considerar O Inverno do Nosso Descontentamento avulso, atribuir-lhe-ia um 5. À luz de outros trabalhos de Steinbeck, seria um 4 - falta-lhe a pujança e a pertinência de um As Vinhas da Ira, ou a espiritualidade de um A Um Deus Desconhecido, ou mesmo a nota de desconcerto final que nos deixa um Ratos e homens.
Na minha percepção, este é um romance mais contido, mais reflexivo e até mais pessoal. A sociedade está presente, as suas injustiças, hierarquias, vícios e manias. E, uma vez mais, estamos perante a narrativa de um homem honesto, de bom fundo, perante as vilezas que o rodeiam. Não é uma história de sobrevivência, como outras do autor, mas sim de ganância, de status social, e também de idoneidade. Declínio e ascensão na sociedade é o que molda e o que move Ethan Allen Hawley e a sua pequena família, no seio de uma cidade fictícia que o autor inventou para urdir o seu enredo.
Acompanhamos, ao longo das cerca de 300 páginas, a decadência moral que tem lugar por detrás das fachadas de New Baytown, que mina a política e a autoridade local. E Steinbeck presenteia-nos com uma personagem principal complexa, multidimensional, cujas ações nos surpreendem e nos chocam, sem que nunca deixem de nos importar.
Mais um romance de excelência daquele que se tem consagrado como o meu autor favorito, a par com o grandioso Somerset Maugham.

Sinopse: O Inverno do Nosso Descontentamento, o último romance que Steinbeck publicou, em 1961, é dominado pelos temas sociais, que conferiram à obra do autor uma unânime ressonância internacional.
O núcleo do romance é o dinheiro, a hipocrisia e os falsos valores, a crítica serena mas implacável às engrenagens de uma sociedade que mutila o homem no que ele tem de mais autêntico.
Na ponta final da sua carreira literária, John Steinbeck reencontra o fulgor de As Vinhas da Ira, o seu romance mais famoso, galardoado em 1940 com o Prémio Pulitzer

#217 STEINBECK, John, Ratos e Homens

Sinopse: George e Lennie vagueiam de herdade em herdade na Califórnia da Grande Depressão, numa sobrevivência sustentada por trabalhos episódicos. Mas os dois amigos têm um plano: vão juntar o suficiente para comprar um bocado de terra com uma casinha e aí poderão viver tranquilamente e dedicar-se à criação de coelhos.

George é pequeno e vivo, e é ele quem toma as decisões; Lennie é um gigante simpático, mas tem dificuldade em lembrar-se das coisas e em medir a sua força excecional. Quando arranjam trabalho a carregar cevada numa herdade junto ao rio Salinas, George e Lennie veem o seu sonho aproximar-se a passos largos da concretização - até que a mulher do patrão entra em cena.

Considerado um dos mais importantes romances de John Steinbeck, publicado originalmente em 1937 e várias vezes adaptado ao teatro e ao cinema, Ratos e Homens é uma história sobre amizade, sobre dignidade e sacrifício, mas também uma parábola implacável sobre o ruir do sonho americano.

Opinião:
description
Imagem da adaptação cinematográfica de 1992
"(…) Eu estava a falar de mim. Uma pessoa fica aqui sentada de noite, a ler livros, ou a pensar, ou qualquer coisa assim… Às vezes, ficamos a pensar e não temos ninguém que diga sim ou não. Quando vemos alguma coisa, não sabemos se está certo ou errado. Não podemos perguntar a alguém se viu também. Não podemos falar. Não temos com quem discutir. Tenho visto muitas coisas aqui. E eu não estava bêbedo. Não sei se estava a dormir… Se tivesse um companheiro comigo, ele podia dizer se eu estava a dormir, e tudo ficava bem. Mas não sei…"

Ratos e Homens, título que me parece genial neste contexto, é uma novela de John Steinbeck, publicada em 1937. Narra os piores anos da depressão americana, quando o sonho americano fugia ao alcance de todos e os país se ia transformando num terreno lamacento de degenerados e desvalidos (para não dizer falidos e endividados). É o quarto livro que leio de Steinbeck, e a segunda novela depois de A Pérola. Apesar de os temas nos seus escritos me parecerem terem uma consciência comum – que se interessa pelas condições de vida dos desfavorecidos, pelas suas aspirações e dificuldades –, Steinbeck consegue sempre surpreender a cada narrativa. 

Esta novela conta a história da amizade improvável entre George, um homem simples habituado a desenvencilhar-se, e Lennie, um grandalhão com um evidente e embaraçoso défice cognitivo. Os dois homens vão fazendo a sua vida de herdade em herdade, nas colheitas e na lavra, ou em qualquer tipo de trabalho braçal que pague. É assim que chegam a uma nova herdade e são introduzidos a outros homens, com outro tipo de problemas, que acarinham sonhos semelhantes de terra e de estabilidade. É angustiante entender como era dura a vida na América dos anos 30, e Steinbeck retrata-o com recurso a uma mulher de moralidade duvidosa, que recorre a exageros de vaidade para colmatar as falhas afetivas, a um negro de costas tortas que se queixa do isolamento a que está votado, e que receia os dias em que não mais será capaz de exercer nenhum tipo de trabalho, e a Candy, um velho que vai fazendo trabalhos domésticos na quinta, e que receia ser posto na rua quando não tiver mais utilidade.

A essência do livro, neste pano de fundo decadente, é a amizade e cooperação entre George e Lennie, que acabei por não entender muito bem como nasceu, mas que Steinbeck talhou para ser inquebrável, mesmo perante a maior das provações.

Lê-se rápido e acrescenta muito. 
Livro a livro, J. Steinbeck vai-se consagrando como o meu autor favorito, a par com W. Somerset Maugham.


Classificação: 5*****/5

#214 STEINBECK, John, A Pérola

Sinopse: Baseada num conto popular mexicano, A Pérola constitui uma inesquecível parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo tão contraditório em que vivemos. E, assim, a história comovente de uma pérola enorme, de como foi descoberta e de como se perdeu… levando com ela os sonhos bons e maus que representava, mas é também a história de uma família e da solidariedade especial entre uma mulher, um pobre pescador índio e o filho de ambos.

Opinião:

"Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tacto com Deus ou com os deuses."

A Pérola é uma novela de J. Steinbeck - provavelmente o meu escritor favorito -, publicada em 1947. Como a sinopse anuncia, é baseado num conto popular mexicano. 

O tom da leitura foi-me muito familiar. Recordou-me sobretudo A Um Deus Desconhecido (1933), que é um dos meus livros favoritos. Tem a mesma carga mística, profética, quase divina desse outro volume.


Uma vez mais, creio antever algum socialismo nas exposições deste autor californiano. Steinbeck volta a pegar num núcleo de pessoas desfavorecidas e atira-os aos lobos. Nesta curta leitura de 98 páginas, nem por isso menos intensa, apresenta-nos a Kino, Juana, e ao filho do casal de pescadores de pérolas, Coyotito. Kino é o chefe da família, é sobre os seus ombros que assentam os seus alicerces. Juana é o lado espiritual, a voz que procura conter os impulsos de bestialidade do bicho-humano. São nativos mexicanos, falam a "língua comum" há pouco tempo, e vivem à beira mar, que lhes traz a cada dia o sustento. Isolados do burburinho da cidade e um pouco à margem das suas regras, não cultivam ambições nem procuram ser mais do que são. A fonte de rendimentos é o barco que Kino herdou do pai, e que pertencera, em tempos, ao seu avô. É com ele que mergulha em busca de pérolas, que depois vendem aos negociantes da cidade.


Steinbeck consegue enlear-nos em toda a sociedade de La Paz (California Sur), e apresenta-nos os muitos defeitos dos extratos que a compõem. Esses defeitos tão humanos são postos em evidência quando Kino encontra uma pérola de valor e dimensão extraordinárias. 


O até então pobre, ignorante e marginalizado Kino, é alvo da curiosidade de toda a cidade. Em breve as coisas escalam e a ganância do padre, do médico, dos outros pescadores e dos compradores de pérolas, põem em risco o equilíbrio sólido da pequena família de nativos que, até então, pouco tivera e menos ambicionara.


Creio que Steinbeck queria mostrar os efeitos nefastos da ganância na sociedade. Diria que esta ganância é a mesma que expôs em As Vinhas da Ira (1929), quando parte da população americana perecia de fome, e a outra aproveitava o seu desespero para progredir pagando baixos salários e explorando-os até à última gota de sangue. Os princípios são os mesmos. Steinbeck deixa também claro o quão difícil é, para alguém à margem, entrar numa sociedade que é aparentemente aberta e heterogénea, plena de oportunidades, mas que no fundo é viciada e corrupta. Deixa evidente que há uma tendência para que o humano tire proveito de outro humano que se lhe apresente vulnerável. A prova disso é que, a partir do instante em que Kino descobre algo valioso, algo que desperta a cobiça de todos os outros, é como se toda a cidade se unisse para o esmagar e expropriar do que poderia significar, para ele, uma possível ascensão social.


Senti as emoções que me acompanharam nestas outras leituras. Injustiça. Desespero. Uma vez mais, o autor conseguiu imprimir uma aura quase de um Jesus Cristo, ou de um profeta, ao seu personagem masculino central. E Juana, por sua vez, é como uma Maria sofredora e mãe. Acima de qualquer coisa, é mãe.


Lê-se muito rápido e é uma excelente introdução à obra deste Nobel (1962) americano.Recomendo vivamente!

Classificação: 5*****

#207 STEINBECK, John, A Um Deus Desconhecido


Sinopse: As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Ao dar cumprimento àquele que sempre fora um dos grandes desejos do pai, criar uma quinta próspera na Califórnia, Joseph Wayne acaba por vir a acreditar que uma das mais belas árvores dessa quinta incorporou o espírito do seu progenitor. Os irmãos e respectivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta vai-se de facto desenvolvendo – até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, o que faz com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A um Deus Desconhecido (1933) é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza, e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente. 

Opinião: "A Um Deus Desconhecido" é a minha estreia com Steinbeck. Tinha uma edição antiga de As Vinhas da Ira, mas lembro-me de começar a ler e de ficar perdida em tanta descrição. A descrição é, precisamente, aquilo que me prendeu de modo tão eficaz a este livro. O título é delicioso, e o livro dança em redor da sua simbologia com uma graciosidade admirável. 

O enredo é relativamente simples: estão a dar terras na costa Este e Joseph Wayne, que sempre sonhou em possuir algo de seu, despede-se do pai, quase um moribundo, e parte. Contudo o livro está prenhe de emotividade, de intuição e de superstição, e creio que a personagem principal não se perdoa por ter partido de modo tão impaciente, quando o seu modelo, o pai, lhe garante que pouco falta para morrer, e que então poderia acompanhá-lo em espírito até ao seu novo lar. 
O novo território é quase selvagem, e Steinbeck descreve-o de modo a que nos chega aos sentidos o perfume dos loureiros, da terra húmida, do pêlo das vacas e dos cavalos, enquanto a audição acompanha os cascos das bestas em trote, os cursos de água em confronto com as pedras, o uivo dos coiotes, a porta do celeiro que range. Em termos de cenário, o livro é a quatro dimensões.

Surpreendeu-me também a profunda humanidade em cada reacção destas pessoas, porque, em breve, ao dar notícias da sua prosperidade aos irmãos, Burton e a esposa, Jennie, e Thomas e a respectiva, Rama, juntam-se-lhes com a sua horda de filhos. Joseph é o que nos oferece mais camadas, é uma mescla de aceitação, entusiasmo, desalento, espiritualidade e depois desalento. Tudo de modo homogéneo, apesar de q sua vida estar ligada à da sua terra, aceita com facilidade as crenças dos outros e entende-as. Ao contrário dos que o rodeiam, que se melindram com os diferentes. 
Joseph ama e respeita a terra, comprometendo-se a protegê-la de qualquer ameaça - que, para o efeito, são os anos de seca cíclicos, narrados com dissabor pelos homens da população local, Nuestra Señora. Andam por ali índios, portugueses e mexicanos. Os primeiros têm crenças ligadas aos ritos da terra: sacrifícios, danças e oferendas, clareiras sagradas onde grandes rochedos cobertos de musgo convidam as grávidas à reflexão. Os segundos e os terceiros são profundamente católicos, e devem ao Padre Ângelo a sua salvação espiritual. O clã Wayne é protestante, pelo que Burton, o mais religioso dos irmãos, se sente desenraizado naquela terra, que desde o início lhe parece herege e devota ao demónio. Por outro lado, Thomas, mais rude, tem uma relação única com os animais. Respeita-os, domestica-os, inflinge-lhes a dor e a morte como se a sua alma fosse uma só com a deles. Não é tão reflexivo quanto Joseph, mas é igualmente introspectivo e de valores profundos. É o irmão cuja religiosidade é conservadora, mas a mente alcança um pouco além das escrituras. 

E depois Joseph, que, no ímpeto de se ver feliz e perante uma tal promessa de prosperidade, olha em redor e vê os animais a reproduzirem-se, a natureza em êxtase, o sol e as chuvas em harmonia, e convence-se que tanta bonança advém da bênção do seu pai, cujo espírito estaria presente nos ramos de um velho carvalho. Junto do carvalho busca conselho, regressando sempre que necessita de partilhar algo que, aos outros, poderia soar ridículo. Entende-se assim como a espiritualidade é algo de íntimo, e que se a sua vantagem é a de nos fazer sentir bem com o mundo, então os seus ritos não devem ser impostos a quem nos rodeia. Entende-se também quão destabilizador é, que alguém nos rache as crenças ao meio, só porque lhe parece desenxabidas. Joseph, de bem consigo mesmo, acaba inclusive por permitir que se celebre uma festa em honra da fertilidade do local, para a qual convida o padre Ângelo, que celebra missa e traz as imagens de Nossa Senhora e de Cristo para o altar improvisado. Isto transtorna o seu irmão Burton, que profetiza que toda aquela idolatria e paganismo acabarão por levá-los à desgraça. Na minha óptica, Burton tem receio. Crê num Deus vingativo e colérico, pouco tolerante, e sente que o irmão está a expô-los a todos a um castigo imerecido.

A morte de um humano é um processo longo e demorado. Matamos uma vaca, e a mesma está morta assim que a carne seja comida, mas a vida de um homem morre como uma comoção numa poça tranquila, em pequenas ondas, expandindo-se e regressando à imobilidade. 

A beleza da narrativa consiste nas descrições pueris da natureza, e de como a mesma ora é simples, ora é incompreensível. Mas reside, sobretudo, no modo como o universo significa coisas tão diferentes para cada personagem, e cada um é devoto àquilo que o tranquiliza, sendo que Joseph precisa da árvore para se sentir seguro, Thomas dos animais e Burton das escrituras e dos acampamentos religiosos. Há ainda quem precisa de se cobrir de peles de animais para ir festejar as chuvas, e se rebole na lama para o mesmo efeito. E depois há quem sinta que deve sacrificar a cada pôr do sol uma criatura diferente, para que na sua terra se multipliquem as sementes e a humidade a mantenha fértil. Deus é algo diferente para cada um deles, e a incompreensão por parte dos outros lança sombras sobre a existência de cada um. 

A ideia geral - e que corroboro - é que Deus é uma entidade pessoal para cada um de nós, e podemos encontrá-lo naquilo que nos traz conforto e paz, sem que exista uma explicação lógica. Um belo tratado sobre tolerância religiosa, numa altura em que o diferente voltou a significar ameaça. Se formos capazes de reconhecer a intimidade premente entre cada um e o universo, talvez o bem-estar espiritual chegue a todos.
Um elogio ainda ao evidente carácter intemporal do livro, escrito em 1933 e tão contemporâneo, bem como à feminilidade que brota desta natureza em esplendor, e à ternura e entendimento entre os homens de Steinbeck e a mulher amada. 
Mal posso esperar por voltar a ler o autor.

Classificação: 5/5*****

#196 STEINBECK, John, As Vinhas da Ira

"The Grapes of Wrath became the best-selling book of 1939, selling almost half a million copies (at $2.75 a copy) in the first year of publication alone. In 1940, the novel also won the Pulitzer prize for fiction, and would subsequently be taught in schools and colleges across the United States."

As Vinhas da Ira é a obra-prima de John Steinbeck, publicada em Abril de 1939. É, também, um livro controverso, e o romance americano mais lido e comentado do séc. XX. A controvérsia é facilmente explicada: onde se fala de oprimidos, traça-se, com naturalidade, o perfil do opressor. E os opressores neste livro de monumental coragem e pertinência, eram a Associated Farmers of California, bem como os bancos e os grandes proprietários capitalistas. 

As palavras chave que acompanham a narrativa, ou qualquer artigo que se aceda a propósito deste vencedor de um Pulitzer em 1940, com meio milhão de cópias vendidas só no ano do seu lançamento, são dignidade, perseverança, pobreza. Algures, numa sinopse, li algo como “Um romance sobre gente decente em condições intoleráveis”. Pensemos que é a época da Grande Depressão e um pré-II Guerra Mundial, o mundo está tenso e a economia quebrada. Há teorias académicas sobre superioridade da raça, sobre eugenia. Em 1932, Erskine Caldwell publicara A Estrada do Tabaco que, a meu ver, é a sua perspectiva sobre a indignidade da população pobre, ignorante, suja. Como se não bastasse, dá-se ainda o fenómeno ecológico Dust Bowls, são os Dirty Thirties e formam-se tempestades de poeira sobre o centro dos Estados Unidos, afectando as colheitas dos estados do Oaklahoma, Kansas, Texas e Arizona. Estima-se que, na década de trinta e até 1939, 116 mil famílias (cada uma possivelmente numerosa), se tenha deslocado das Grandes Planícies para a Califórnia, para escapar à seca, às tempestades de poeira e à pneumonia e outros males causados por essa circunstância. Fugiam também à fome, porque os bancos e grandes proprietários vieram cobrar hipotecas de gente endividada após uma década de dificuldades, e arrasaram-lhes as casas com tractores.
description

"Se me não dissessem que devia ir-me embora, era provável que eu, a estas horas, estivesse na Califórnia, a papar uvas e a descascar uma laranja quando me apetecesse. Mas, mandarem-me embora estes filhos da mãe, isso não, por Jesus. Um homem como eu não se submete assim."


As Vinhas da Ira conta a saga da família Joad que, após alguns meses na estrada, se mescla por completo com os outros Okies (o modo desdenhoso como os Californianos vão recebendo cada vez mais e mais destituídos). Acompanhamos a família dos seus vários prismas. Primeiro, do ponto de vista individual, o foco principal incide sobre o jovem Tom Joad. Os contornos de cada membro da família Joad são muito nítidos, muito consistentes, e Tom é um tipo tranquilo, malgrado ter acabado de cumprir pena por homicídio. Regressa a casa sem fazer ideia de como a situação se agravou para toda a família (todo o Estado) durante a sua ausência. Steinbeck dá-nos assim a oportunidade de analisar a devastação do seu mundo pelos seus olhos de retornado. À poeira junta-se o oportunismo, e a comunidade está de cabeça para baixo, dividida entre executores de dívidas e executados. O crédito sufoca-os também. À passagem do tractor, nada fica de pé. A família carrega então a sua velha camioneta com os pertences que consideram necessários, e partem de Sallisaw, como todas as outras, rumo a Oeste.
description
Não demora muito para que os Joads se dêem conta de que percorrem a Estrada 66 à semelhança de centenas de outros veículos vergados sob o peso da carga de uma vida inteira, e que vão tolhidos pela mesma necessidade de água, comida e trabalho. 

"A 66 é o caminho de um povo em fuga."


O que é de louvar é o modo como os Joad nem por um instante perdem a dignidade. Ou mesmo a generosidade, o companheirismo. Damo-nos conta do papel de amparo de um país, das suas leis. Do modo como a economia se isola de tudo isso, de como o capitalismo, por vezes tão associado à verdadeira essência da América, também causou gravíssimos danos colaterais nalguns momentos da História. Num país já adverso ao comunismo, torna-se evidente, nas linhas de Steinbeck, a necessidade da greve, da união e da subversão para a conquista de direitos básicos e inalienáveis. A etiqueta de vermelhos recai sobre os homens que exigem nada mais do que trabalho digno, respeito. Homens que, apesar de se cavar sob eles o fosso da fome, das epidemias e do desconforto físico, resistem a entregar-se à pilhagem e ao crime. Homens que, enquanto podem, recusam a mendicidade.

Os alicerces da família, cujas intempéries parecem empenhadas em desmantelar, são sem dúvida Tom – o seu espírito vivaço, a sua tranquilidade e o seu crescente sentido de dever, e a Mãe. A Mãe é ela própria uma entidade. Um elo, a alma pulsante da família. Não consigo deixar de comparar esta mulher admirável às marionetes de Hemingway, e fica desde logo claro porque Steinbeck, na minha opinião, lhe é tão superior.
description
O romance tem um senso épico, civilizacional. Não admira que se escrevam canções sobre ele (a melancólica/energética The Ghost of Tom Joad, em tantas versões distintas. Que se discuta na escola. Que tenha enfurecido os opressores e granjeado o apoio de Eleonor Roosevelt. Que tenha, de facto, impresso a etiqueta de vergonha nos tornozelos dos fazendeiros impiedosos da Califórnia que, perante a situação da quantidade de a oferta de mão-de-obra ser muito superior à oferta de lavoura, contribuíram para o colapso daqueles miseráveis que, como único pecado, tinham o facto de não ser proprietários nem ter o apoio do estado nem d’o Auxílio. É um Êxodo, de facto. Não pude deixar de compará-los ao povo Judeu, em marcha para fugir à escravidão e à brutalidade dos egípcios. Aqui é o povo das Grandes Planícies, pessoas que, de repente, se dão conta de que são um todo marchante, à beira de um abismo que não cessa de se aprofundar. E vão suportando, suportando, e a ira cresce. 


"Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma, e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não valia de nada andar por sítios desertos, porque aí, a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com quem formava um todo. (...) Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum."

Saliento ainda a prosa acessível de Steinbeck, embora, por vezes, o seu discurso, os seus diálogos, tenham contornos Bíblicos, místicos. Quando li A Um Deus Desconhecido, reconheci traços de Jesus na personagem principal. Aqui, com facilidade, podemos reconhecer um outro Jesus em êxodo, e uma Maria sofrida mas de pé, a segurar a família ao seu redor e contra o seio.



E o discurso transcendente, que nos deixa com a garganta apertada e a sensação de estarmos perante algo maior:


"Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que se lute para que a gente com fome possa comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia estar a bater num tipo, eu estarei presente. (...) Estarei onde quer que vejam criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome, mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que plantar e morar nas casas que construir... então também estarei presente."

É-me evidente que um dia voltarei a lê-lo.
Classificação: 5*****