Sinopse: Num futuro não muito distante, um grupo de activistas pelo clima radicaliza-se e decide derrubar o sistema. Dotado de uma eficaz máquina de propaganda, que lhe garante o apoio popular, consegue chegar ao poder e impor uma sociedade totalmente verde. Mas a que preço?
Depois do sucesso de "E Se Eu Morrer Amanhã?" e de "O Elevador", nomeados para melhor livro do ano e em adaptação para filme, Filipa Fonseca Silva traz-nos um romance distópico electrizante, que levanta questões incontornáveis, como a emergência climática e a polarização de uma sociedade à deriva.
Opinião:Admirável Mundo Verde, com uma capa magnífica e poderosa que põe na gaveta os preconceitos de "romance no feminino", beneficiou de uma questão: é que estou a ler 1984 [abandonei] enquanto o lia, e às tantas os universos distópicos recordavam-me o outro, e eu tinha de me situar. Acho que é um bom elogio dizer que, por vezes, na minha cabeça, não sabia se tinha acabado de ler palavras escritas pela Filipa ou ideias de George Orwell.
A ideia de uma ditadura ecológica com base em fundamentalismos ambientais é tão pertinente quanto audaciosa. A autora deu-se ao trabalho de conferir várias dimensões às personagens - bem como à própria causa ambiental -, promovendo uma reflexão muito necessária neste momento da nossa civilização. Infelizmente, acho que o livro da Filipa estará cada vez mais atual nas próximas décadas, e a ideia de surgirem organizações como as Brigadas Verdes e os Estudantes pelo Planeta, com ações radicais, desesperadas, vingativas e partindo de um princípio de justiceiros, pode muito bem tornar-se real ainda no nosso tempo de vida.
Torci muito pelo trio a quem a autora chamou de Santíssima Trindade a determinada altura. Além da escrita fluida, da imaginação prodigiosa, vê-se que é um livro escrito com paixão e conhecimento de causa, com preocupação genuína pelos dois lados da moeda - a desconsideração pelos avisos de emergência ambiental e o radicalismo a que essa atitude pode conduzir.
Gostei muito das personagens, das suas preocupações e das forças que iam buscar não se sabe bem onde, e achei que é um livro com momentos muito duros e reflexões carregadas de desesperança que, ainda assim, nos recordam de como o ser humano se adapta e encontra sempre resiliência, mesmo nos momentos mais negros da existência. O lado mais cruel do livro é precisamente a verosimilhança com que a autora teceu os cenários, as personagens, os rumos políticos e sociais desta questão tão urgente.
A natureza humana tem superado tudo e imperado sobre o planeta, impondo-se a outras espécies e dobrando quase tudo aos seus interesses. Contudo, o clima impõe-se como o inimigo invencível que pode muito bem vir a condenar a hegemonia do Homem no planeta Terra.
Opinião: Em História, estou a descobrir que uma investigação bem feita segue uma metodologia transdisciplinar, que inclui várias áreas de estudo das ciências sociais, incluindo antropologia, psicologia, sociologia, etc. Ao ler Vista Chinesa, dei por mim a aplicar a mesma teoria a um livro que é um tratado de literatura com ingredientes de todas essas áreas.
Li este livro em 3 horas, perplexa por só agora me ter cruzado com esta obra-prima.
"Eu estava viva, mas ainda não sabia se a vida seria possível."
O livro é um colosso de literatura, favorecido pela economia do número de páginas, escritas a uma mesma cadência, como um fôlego único e imersivo. O fluxo de consciência seria a única abordagem possível para uma obra que é uma viagem atribulada à psique de uma mulher destruída, fraturada, vítima daquilo que é o maior terror do sexo feminino e que, com a força que nos é intrínseca, continua.
"Não deve haver aflição pior do que o desconhecimento tangível da dor de um filho."
O livro deixou-me agoniada, mas também maravilhada pela destreza da prosa, a dureza da excursão aos abismos de uma mulher comum. A autora ilustra uma cidade, uma mulher, um círculo social, preocupações transversais a todos nós, um sistema podre e exasperante que massacra os cidadãos nos seus momentos de maior fragilidade. Tudo à mão-livre, ao sabor dos mergulhos e dos voos de Júlia que, numa tarde de terça-feira, decidiu ir correr sozinha no Rio de Janeiro.
"Que a cura talvez venha pelos detalhes. São os detalhes que me vão livrar do todo."
É de um realismo assombroso, as divagações, os dilemas, as dúvidas, as certezas, as dores e a coragem da personagem principal tornam-se também nossas. Apesar disso, é consistente, por vezes labiríntico, claustrofóbico, constrangedor, provocador, acusador. Em tão poucas páginas, a autora fez um trabalho notável de solidez irrepreensível, e senti-me orgulhosa por descobrir uma escritora assim.
"Mas a dor dos outros não diminuía a minha."
Vista Chinesa é um retrato psicológico de violência e cura desconcertante, mas necessário, que não se permite cair em clichés nem pincelar de rosa o que de mais negro existe na natureza humana. É literatura da melhor que o nosso século será capaz de produzir.
Sinopse: Estamos em 2014. Euforia no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro. Copa do Mundo prestes a acontecer, Olimpíadas de 2016 à vista. Autoestima da cidade nas alturas. Sensação de que o país havia encontrado um novo caminho. Júlia é sócia de um escritório de arquitetura que está planejando alguns projetos na futura Vila Olímpica. No dia de uma dessas reuniões com a prefeitura, Júlia sai para correr no Alto da Boa Vista, um enclave de Mata Atlântica no meio da grande cidade. A certa altura, alguém encosta um revólver na sua cabeça e a leva para dentro da mata, onde é estuprada. Deixada largada no meio da floresta, ela se arrasta para casa, onde uma amiga lhe presta os primeiros socorros. O rosário de dor, sensação de imundície e "culpa" é descrito com crueza e qualidade literária poucas vezes vistas em nossa ficção. Assim como os percalços junto à polícia para tentar encontrar o criminoso numa sociedade em que basta ser pobre para parecer suspeito. Mas nem tudo é horror e escuridão. A história é narrada para os filhos da protagonista anos depois do terrível episódio. Os fatos retrocedem e avançam no tempo. Temos o início de namoro de Júlia, sua lua de mel numa praia paradisíaca, a gestação. São momentos em que habilmente a autora constrói outra visão do corpo e da sexualidade de Júlia como uma prova, para quem cometeu a violência e para si mesma, de que ela é ainda a dona da própria história.
Sinopse: O inspetor Lobo quer descobrir quem matou Laura. Afonso quer que o deixem escrever o que ele gosta. Gabriela quer que o inspetor Lobo faça o seu trabalho e quer que Afonso escreva o que lhe pedem.
Mas Laura continua morta, os pais dela pressionam as forças policiais, e é preciso apanhar o culpado. Ou serámais que um? Que forças estranhas os rodeiam sem que deem por nada?
Quando Afonso perde a namorada, Júlia, num horrível acidente, vê no luto a oportunidade que precisa para parar de escrever, sem ninguém contestar.
Se o leitor acha que já percebeu este livro, podemos afirmar, com toda a certeza, que não. Porque quando pensa que descobriu o que se passou, Mafalda Santos abre outra cortina com outra realidade, desafiando-nos.Mas quando o fim, finalmente, chegar,pode ter a certeza de que não passará despercebido.
Opinião:A minha estreia nas obras da Mafalda Santos não podia ser mais auspiciosa! Costumo hesitar muito em dar cinco estrelas a um livro, mas a viagem que este me proporcionou foi tão incrível que mas arrancou.
Sei que a Mafalda Santos está ligada ao teatro, ao mundo para lá das cortinas do palco. Neste romance, leva-nos pelos bastidores, mas também pela plateia, e direitos à secretária dos criadores.
A sinopse promete-nos uma investigação, mas depressa esse mote deixa de ser o fio condutor do livro. O que nos orienta ao longo desta narrativa é a profunda reflexão que oscila entre o criador e o produto da sua imaginação, aqui questionada uma e outra vez, em jogos de espelhos, truques de ilusionista, cortinas que se fecham e voltam a fechar sobre o palco. A autora tira-nos várias vezes o chão, e o final é tão satisfatório, tão imprevisível e, ainda assim, em linha com a história, que não me perdoei por não o ter antecipado: o que apenas significa que a autora soube escondê-lo convenientemente do leitor, até ao twist final.
Para mim, isto é a nova literatura portuguesa. Sem fórmula. Sem português inalcançável. Escrita com fluidez, com naturalidade, diálogos credíveis, vivências e rotinas com as quais conseguimos facilmente identificar-nos. Um texto limpo, sem floreados desnecessários, que ainda assim convida à reflexão e nos inquieta e destabiliza. Li-o como escritora que também sou, e adorei a premissa principal. Adorei, acima de tudo, a conclusão que a autora deu a esta obra tão peculiar.
Aconselho vivamente a quem gosta de ler, e mais ainda a quem duvida da qualidade das autoras nacionais!
Opinião:Há algo de muito terno e genuíno nos livros desta autora. À semelhança de “Pequenas Coisas como Estas” a autora tece uma obra pequena, apenas com as personagens e os momentos necessários, sem se perder em divagações. Depois, traça a sua rotina, geralmente numa Irlanda pobre onde o povo labuta arduamente por alimento enquanto é fortemente influenciado pela igreja e está sujeito à intempérie.
Neste «Acolher», nunca chegamos a saber o nome da personagem principal (ou passou-me completamente ao lado), é uma criança, e isso é tudo o que importa saber. Uma criança que, durante as curtas 65 páginas do livro vai conhecer uma rotina diferente da sua, vai ver o mar, vai comer com abundância, vai andar limpa e bem vestida e, acima de tudo, vai experimentar afeto. É comovente essa estranheza da criança carente e negligenciada para com o afeto. A autora até nisso foi sublime, porque é difícil não chorarmos na cena final.
Podia escrever um ensaio de 300 páginas sobre estas 65 da autora, mas basta-me pedir-vos que lhe deem uma, duas horas, e que me digam se este equilíbrio entre rudeza e ternura não é perfeito.
Sinopse:Uma menina vai viver com pais adotivos numa quinta na zona rural da Irlanda sem saber quando regressará. Numa casa desconhecida, de gente estranha, encontra um calor e uma afeição que não sabia existirem e começa lentamente a florescer. Até que a revelação de um segredo a faz compreender a fragilidade da sua vida.
Sinopse: Em finais dos anos 70, no Caniço, uma cidade costeira na ilha da Madeira, todos conhecem Ana Clara, a estranha rapariga que não fala e que passa os dias à janela.
Quando Anita Fontoura a vê, também ela presa na sua janela de solidão imposta pelo marido, desenvolve-se entre as duas vizinhas uma amizade inesperada.
Décadas mais tarde, de regresso à ilha para enterrar Anita, a sua filha Oti reencontra-se com Ana Clara, sua madrinha, para tentar compreender a história da família, das mulheres Fontoura, da fuga das duas para Lisboa e daquela mãe que foi tão difícil amar.
Este é um romance sobre liberdade e coragem, sobre forjarmos nosso próprio caminho, sobre gritos no silêncio. Duas mulheres enclausuradas que o destino uniu e que, juntas, encontraram uma forma de voar.
Opinião: EmVertigens, a Valentina Silva Ferreira dá-nos a conhecer um leque de mulheres inesquecíveis. Ainda que as protagonistas sejam, indiscutivelmente, Ana Clara e Anita Fontoura, senti por várias vezes que o verdadeiro protagonista é o sagrado feminino - o ser mulher, as ligações entre as mulheres, a doçura, a força, a resiliência das mulheres e o seu estatuto, à época, de cidadão de segunda.
A minha maior surpresa foi para com a voz narrativa desta jovem autora madeirense. Nunca tinha lido nada da Valentina e, ao abrir o seu livro, senti-me perante um talento colossal. Uma voz poderosa mas que não se esforça, não se afeta. Uma voz acessível mas muito, muito lírica, que polvilha a historia de misticismo. Não conheço muitos livros assim de autores portugueses e, tendo de o aproximar de um estrangeiro, diria que há um quê de Gabriel Garcia Márquez no modo como as vidas das mulheres Fontoura são contadas. Embora sem cair no realismo mágico, há ali uma série de apontamentos memoráveis, de sentido de continuidade, que me remeteu para o universo das goiabas e dos trópicos.
MasVertigensé ainda mais do que isso. É um livro primorosamente escrito que nos traz a Madeira, os madeirenses, a clausura da ilha lado a lado com a sua beleza fatalista. É um livro excepcionalmente envolvente, que merece a distinção como semifinalista do Prémio Oceanos, e que promete um futuro pleno de luz à sua autora.
Opinião: A grande protagonista da tetralogia de Elena Ferrante é Nápoles. Nápoles e a sua microsociedade, o intrincado das suas ruas, os jogos de poder entre as personagens. A par de Nápoles, a história do século XX, aqui representada numa Itália que se debate entre os saudosistas do fascismo e a novidade do comunismo de rua, ativo e revindicativo, é o outro grande protagonista desta saga.
O fio condutor continua a ser a amizade de Raffaela e Elena, a primeira ficou no bairro, a segunda bateu as asas, experimentou um breve instante de reconhecimento pelos muitos anos de estudo e pelo livro publicado, e vive em Florença. A primeira separada, a segunda casada. A primeira com um filho crescido, a segunda a experimentar a maternidade. Como se a vida corresse mais depressa, mais intensa e impiedosa, para quem fica para trás. Como se Lila, de alguma forma, abrisse sempre o caminho, estivesse sempre mais adiante, soubesse mais da vida, e Elena simplesmente a seguisse, procurando, a todo o instante, validar a sua própria experiência à sombra da que foi de Lila.
As duas são cativantes mas, para mim, o romance ganha fôlego sempre que temos um vislumbre da vida e da mente de Lila. Para mim, a anti-heroína mais fascinante da literatura recente. É admirável que a autora tenha cimentado a inteligência e as capacidades destas duas mulheres para as conduzir por um século conturbado, com grandes mudanças, em que a mulher pela primeira vez pode usar a própria voz para fazer valer os seus direitos.
Profundamente feminista - o feminismo que considero genuíno, porque saído do suor de adversidades reais, por vezes de aspeto intransponível -, mas também realista, a história que continua a ser-nos contada chama cosntantemente o leitor a identificar-se com estas pessoas - não apenas com as mulheres principais, mas com as outras gerações também, com as suas falhas e conquistas. E, em simultâneo, não nos pede nada. Não tem pretensões de ser nada. Avançamos pelas páginas movidos pela curiosidade de saber o que é feito de fulano e beltrano, e acabamos a sentir que a nossa vida se assemelha bastante à deles e que, ao mesmo tempo, não tem nada em comum com a deles. Mas sentimos igual, ou sentiríamos igual.
Vou avançar para o quarto e último volume enquanto tenho estas personagens frescas na ideia. São muitas e todas me parecem relevantes. Não convém esquecê-las.
Sinopse: Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.
Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.
Sinopse:As noites brancas são as do início do verão que se observam em latitudes como as de São Petersburgo e em que quase não escurece. São noites que não se distinguem dos dias, uma espécie de sonhos a imitar a vida.
Foi por isso que Dostoievski usou como subtítulo desta sua obra «Recordações de Um Sonhador». Talvez não tivesse sido possível a Dostoievski imaginar um narrador como o de Noites Brancas se não tivesse lido as obras de Dickens, Balzac e Eugène Sue. É uma narrativa na linha de outras obras do autor como Crime e Castigo, O Adolescente e Humilhados e Ofendidos.
O sonhador de Noites Brancas acaba por se perder da vida real, por se afastar do que interessa aos outros, mergulhando na tragédia solitária, como sucede a outras personagens de Dostoievski.
Opinião: As noites brancas são as do início do verão que se observam em latitudes como as de São Petersburgo e em que quase não escurece. São noites que não se distinguem dos dias, uma espécie de sonhos a imitar a vida.
Foi por isso que Dostoievski usou como subtítulo desta sua obra «Recordações de Um Sonhador». Talvez não tivesse sido possível a Dostoievski imaginar um narrador como o de Noites Brancas se não tivesse lido as obras de Dickens, Balzac e Eugène Sue. É uma narrativa na linha de outras obras do autor como Crime e Castigo, O Adolescente e Humilhados e Ofendidos.
O sonhador de Noites Brancas acaba por se perder da vida real, por se afastar do que interessa aos outros, mergulhando na tragédia solitária, como sucede a outras personagens de Dostoievski.
Opinião: Há, na natureza humana, uma espécie de competição passiva entre mãe e filha, em certos núcleos. Muito se tem falado de crianças criadas por mães narcisistas, creio que Irene Nemirovsky, inspirada na sua própria relação com a mãe, nos ofereça um conto sublime em torno do assunto. É simples, curto, contém apenas o essencial. Ainda assim é intenso, com personagens cheias de nuances e de motivações. Antoinette tem 14 anos e é quase uma mulher. Os pais, um judeu convertido e uma ex funcionária de banco, são novos ricos graças a uma jogada na bolsa. Desesperados por impressionar a classe a que tanto desejaram pertencer, negligenciam a filha única. Vivem de aparências, e procuram moldar Antoinette a um estilo de vida em que, acima de tudo, importa impressionar.
Antoinette vinga-se dos pais da melhor forma, em especial da mãe que lhe é abertamente hostil. Lembrou-me, com melancolia, a intensidade das novelas de Stefan Zweig. Gostei muito.
Sinopse:Os Kampf, acabados de transpor o limiar da opulência devido a uma miraculosa jogada de Bolsa, decidem dar um baile para se lançarem na sociedade. Antoinette Kampf tem catorze anos e sonha estar presente na grande ocasião, mesmo que por breves instantes. No entanto, Mme. Kampf toma a irrevogável decisão de não permitir a presença da filha, já suficientemente crescida para atrair sobre si olhares de eventuais admiradores. Antoinette, revoltada e em desespero, vai vingar-se com naturalidade e sem premeditação. Os temores trágico-cómicos de arrivistas que recebem pela primeira vez pessoas que desprezam e que nutrem por eles o mesmo tipo de sentimento, a rivalidade mãe-filha que finalmente se manifesta a pretexto de uma frivolidade, a amarga solidão de uma criança que já deixou de o ser, tudo isto nos é oferecido por este livro fascinante e perturbador. O Baile foi adaptado ao cinema, com Danielle Darrieux no principal papel.
Sinopse: Escrito em plena tormenta da História, Suite Francesa descreve quase em directo o Êxodo de Junho de 1940, que reuniu numa desordem trágica famílias francesas de todos os quadrantes, das mais abastadas às mais modestas. Com grande audácia, Irène Némirovsky persegue as inúmeras pequenas cobardias e os fracos gestos de solidariedade de uma população à deriva. Cocottes abandonadas pelos amantes, grandes burgueses enojados com a populaça e feridos abandonados em quintas entopem as estradas de França bombardeadas ao acaso... Pouco a pouco, o inimigo toma posse de um país inerte e amedrontrado. Como tantas outras, a aldeia de Bussy é então obrigada a acolher o exército ocupante. Exarcebadas pela sua presença, as tensões sociais e as frustrações dos habitantes despertam...
Suite Francesa é, ao mesmo tempo, um brilhante romance sobre a guerra e um documento histórico extraordinário. Uma evocação inigualável do êxodo de Paris após a invasão alemã de 1940 e da vida sob a ocupação nazi, escrito pela ilustre romancista francesa Irène Némirovsky ao mesmo tempo que os acontecimentos se desenrolavam à sua volta. Embora tenha concebido o livro como uma obra em cinco partes (com base na estrutura da Quinta Sinfonia de Beethoven), Irène Némirovsky só conseguiu escrever as duas primeiras partes, Tempestade em Junho e Dolce, antes de ser presa, em Julho de 1942. Morreu em Auschwitz no mês seguinte. O manuscrito foi salvo pela sua filha Denise; foi apenas décadas depois que Denise descobriu que o que tinha imaginado ser o diário da mãe era na verdade uma inestimável obra de arte, que viria a ser aclamada pelos críticos europeus como um Guerra e Paz da Segunda Guerra Mundial.
Romance assombroso, intimista, implacável, desvelando com uma lucidez extraordinária a alma de cada francês durante a Ocupação (enriquecido e completado pelas notas e pela correspondência de Irène Némirovsky), Suite Francesa ressuscita, numa escrita brilhante e intuitiva, um momento decisivo e marcante da nossa memória colectiva.
Opinião: A fascinante Irene Némirovsky, de origem judia e nascida em Kiev, tinha planos para escrever um Guerra e Paz que narrasse a ocupação de França pelos nazis. Tinha-se naturalizado francesa havia muito, era casada e tinha filhas francesas. No entanto, sentia-se vulnerável devido às suas origens, e retirou-se para o campo com a família. Ali, enquanto esperava que o inimigo a encontrasse, acalentava a esperança de que isso nunca acontecesse. Escrevinhou um esquema geral para o romance colossal que pretendia criar, apontou as suas dúvidas, fez pesquisa, tirou notas acerca das personagens e suas vivências.
Suite Francesa é a minha estreia com a autora. Comecei por ler sobre a sua vida, e comovi-me profundamente. É costume dizer que não se deve confundir o autor com a obra, nem ler a obra influenciado pela figura do autor. Neste caso, a narrativa está tão entrelaçada com a voz da autora que a absorvi sempre ciente de quem a escrevia.
A autora criou um mosaico de diversas personagens na França de 1940. Temos os Michaud, uma família que trabalha num banco e aguarda o regresso do filho da frente, após a derrota francesa, os Péricand, da alta burguesia, ricos e, ainda assim, conscientes dos sacrifícios inerentes à época, os Corte, um coleccionador de loiça de Limoges que escapa à evacuação de Paris para depois ser tolhido pelo blackout (não podiam acender luzes em Paris durante a noite, nem sequer de automóveis, devido aos bombardeamentos dos aliados), etc.
A meio da narrativa surgem Lucille e a sogra, a senhora Angellier, bem como o oficial alemão que estas são obrigadas a alojar em casa. Toda a leitura demonstra uma humanidade profunda e espontânea. A autora não odeia o indivíduo alemão, tal como não enaltece o indivíduo francês. Retrata o primeiro com a sua sensibilidade para a arte, o seu sentido de dever e o seu saudosismo para com a Alemanha natal. Retrata o segundo com o seu snobismo de classe, o seu vício da cuscovilhice e da bebida, a sua mesquinhez ocasional. Em suma: permite-nos compreender que os homens são todos iguais, são os governos que diferem e os lançam uns contra os outros.
A narrativa foi interrompida pela deportação da autora para Auchwitz. O marido, sem fazer ideia do que significava esse lugar, bateu-se durante meses com as entidades alemãs para tentar obter notícias da mulher e trazê-la de volta a casa. Os alemães acabaram por se aborrecer com este católico tão aficcionado de uma judia, e acabaram por o executar nos mesmos moldes.
As filhas do casal fugiram com ajuda de amigos da família, estavam expostas e podiam ser consideradas judias por via da mãe. Dos objetos da casa, levaram apenas uma mala com os escritos da mãe. Décadas depois tiveram coragem de abrir o manuscrito, que julgavam ser um diário íntimo da mãe, e compreenderam que é na realidade uma obra de ficção que poderia ser disponibilizada ao público em geral.
Delicado, por vezes irónico, mas sempre pleno daquela compreensão da humanidade que só quem sofre possui, é uma leitura que vale muito a pena.
Sinopse: Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século XX. Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos. Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele. No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações. Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.
Opinião: Nunca pensei que este segundo volume da tetralogia superasse o primeiro, mas a verdade é que o senti pelo menos tão intenso quanto “A amiga genial”. Senti o livro igualmente profundo, igualmente pertinente. A cada página, Ferrante recorda-nos daquilo que foi o século XX na Europa do Sul, a ascensão de uma pobreza abjeta, de uma miséria obscura, das classes mais vulneráveis para a classe média. O papel dos estudos, do capitalismo, da imagem, no desenvolvimento social e na emancipação das mulheres. Parece-me que a Lila causa aversão a muitos leitores, porém permanece a minha personagem favorita. Ela permite-se ser feliz, permite-se arriscar e não tem medo de nada. Mas a vida, as amarras em torno do seu género, a prisão do bairro e a sua pertença, primeiro ao pai, depois a um marido, impedem-na de exercer o seu direito à liberdade. Termina com uma reviravolta agradável que me levou aos meus tempos de estudante, à época em que sabia que sem um diploma nunca seria nada, nunca teria nada. E à publicação do meu primeiro livro, e ao sentimento de que, daí, viriam coisas maravilhosas. Uma obra contemporânea com todos os contornos de um clássico e que conserva o sabor a contemporaneidade. Ferrante recorda-nos da longa estrada até sermos senhoras da nossa voz. Venceu-se o preconceito de mulheres na escola, de mulheres a tomarem decisões sobre a sua sexualidade. Venceu-se o patriarcado, a ideia de que a mulher pertence aos filhos e à casa. Venceu-se tanto, e tanto há ainda a vencer…