Sinopse: A mulher vagueia no universo repressivo da casa. Poderia ser a mesma onde a avó fora morta pelo avô, ou de onde a mãe saíra, louca, para o hospital psiquiátrico. Ema é o nome de todas elas. Como o da antepassada tomada pelo terror após ter parido uma menina, sem dar ao homem com quem casara um filho varão. É esse espaço de violência que vai alimentando o ódio na paixão que a última das Emas tem pelo marido. Um ódio crescente que a impele, implacável, para a vingança, para o assassínio dele. Uma morte desfrutada, dir-se-ia gozada, por um olhar onde, apesar de tudo, a paixão perdura...
Opinião:
"Naquela noite, quando ele acabou, ela soube, teve a certeza que ficara grávida. Sentou-se na borda da cama alta e vomitou para o bacio que mal teve tempo de puxar para si."
Ema é a minha estreia com Maria Teresa Horta (N. 1937), e é um aquecimento antes de me atrever a ler As Luzes de Leonor. Trata-se de uma novela (apesar de ser listado como romance, mas tem apenas 134 páginas e pouquíssimas personagens) publicada em 1985, e a temática é-me muito familiar: a mulher maltratada, abusada, violentada, magoada e de rastos às mãos do marido, e com a conivência da família.
Trata-te de um livro ao qual atribuo os adjetivos cru e visceral, e identifico alguns motivos pelos quais não mexeu mais comigo, tratando-se de uma das minhas bandeiras de vida (a denúncia da violência contra as mulheres).
Em primeiro lugar, trata-se de uma história muito curta, torna-se difícil afeiçoarmo-nos realmente às personagens (três Emas: avó, filha e neta, todas infelizes no casamento), mesmo porque a história é contada em avanços e arrecuas, com algumas repetições, alguma confusão (não há tell, trata-se sobretudo de show, coisa que aprecio bastante mas que levanta muitas dúvidas). Por outro lado, é muito interessante o modo como a autora distinguiu as vozes e o tempo das três Emas (a maçaneta de loiça que depois é metálica, o cabelo loiro e os bandós, o fato casaco-calça da neta, o cabelo curto e ruivo, os objetos oferecidos a uma Ema que depois se tornam relíquias para as outras Emas), e também o modo como a infelicidade de uma parece a infelicidade de todas, entrelaçadas numa mesma desdita conjugal que atravessa o tempo e as gerações.
Outra coisa que me impediu de me entregar mais ao romance é o facto de que, em 1985, esta obra poder constituir um tratado feminista, uma denúncia social, uma obra essencial que deu voz às mulheres. Em 2020 trata-se de um romance ainda atual (infelizmente), mas em torno de um tema muito discutido e explorado nesta época. Não deixa de ser trágico que assim seja, que ainda hoje seja pertinente falar-se de violência doméstica, de abusos psicológicos e de patriarcado... Mas a verdade é que, posto isto, o romance não me trouxe nenhuma novidade, nem chegou a comover-me embora esteja magistralmente escrito.
Sinopse: Roseanne McNulty tem perto de cem anos e é a doente mais antiga do hospital de saúde mental de Roscommon. O doutor Grene, o psiquiatra encarregado da avaliação dos pacientes, sente-se intrigado pela história daquela mulher, que passou os últimos sessenta anos da sua vida em instituições psiquiátricas. Enquanto o médico investiga, Roseanne faz uma retrospectiva das suas tragédias e paixões, que vai registando no seu diário secreto, desde a turbulenta infância até ao casamento que lhe prometia a felicidade. Quando o doutor Grene desvenda por fim as circunstâncias da sua chegada ao hospital, é conduzido até um segredo chocante.
Um livro primorosamente escrito, que narra uma história trágica, fruto da ignorância e mesquinhez, mas ainda assim fortemente marcada pelo amor, pela paixão e pela esperança.
Opinião:Peguei neste romance com entusiasmo, porque une dois dos meus temas favoritos: a Irlanda e os asilos psiquiátricos. A receita tinha tudo para dar certo, e começa firme com um certo misticismo irlandês muito caraterístico, uma queda para a fábula e o sobrenatural muito acentuada.
Esse, talvez, seja um dos problemas. A narrativa é incongruente: apesar de ser a duas vozes (Roseanne e o seu psiquiatra, William Grene), o ritmo é incerto. Senti que a escrita seguiu muito o estado de espírito do autor - foi a primeira vez que senti algo assim num livro, sobretudo num traduzido, pelo que posso estar muito enganada, mas foi a percepção com que fiquei.
Há pelo menos duas coisas que não têm resposta, ou pelo menos não consegui discerni-la na leitura, e que mancham o aprumo com que o enredo foi montado. Posto isto, a narrativa vale pela Irlanda do século XX, do IRA, da guerra civil, da separação Norte/Sul e da miséria absoluta, bem como do clima agreste e da eterna quezília protestantes/católicos. Achei que o romance falha a vários níveis humanos e narrativos, pelo que não me arrebatou.
Classificação: 3,5/5*****
PS: Acabo de descobrir que há um filme protagonizado pela minha adorada Rooney Mara
"E só compreendi isso quando vi os prisioneiros no quartel da Pide, a resignada espera dos seus gestos, as barrigas gigantescas de fome das crianças, a ausência de lágrimas no pavor dos olhos. É preciso que entenda, percebe, que no meio em que nasci a definição de preto era «criatura amorosa em pequenino», como quem se refere a cães ou a cavalos (...)"
Ler António Lobo Antunes foi dos maiores desafios literários que me coloquei em 2019. Sem escapar à certeza de que gostos são gostos, há vários motivos para se ler. Há quem leia para se entreter, o que é muito válido, e eu sinto que, ultimamente, só leio para me inquietar. Sabia que o este psiquiatra e eterno candidato a Nobel da Literatura me haveria de inquietar, mas receava que a inquietude não me chegasse devido às barreiras estilísticas. Em contrapartida, apesar de cumprir bem a missão de me pôr a pensar a nossa História e este falhanço boçal que foi a Guerra do Ultramar, não me senti entretida nem posso dizer que tenha gostado. Gostei de partes, mas o todo parece-me espinhoso. Não tenho especial preferência por livros em que é preciso remover as espinhas para chegar ao núcleo.
Saí uma noite de casa e fui ao centro comercial (odeio centros comerciais) comprá-lo. Não me esqueço porque queria a edição da D. Quixote, e porque para isso tive de ficar na fila da Bertrand, naquela altura do ano em que os pais vão levantar livros escolares - porque não encomendá-los online? -, a vê-lo no topo de uma prateleira à qual não chegava, e a ensaiar como diria o seu título ao rapaz que me atendesse quando a fila desaguasse na caixa. Tudo porque estava ansiosa para lê-lo. Quando mo meteram na mão, corri para casa e estendi-me no sofá, abri-o, sorvi algo a respeito do Jardim Zoológico de Lisboa, pensei que era familiar, que íamos dar-nos bem, e depois sofri um golpe e fiquei à deriva. Deixei de entender, perdi-me nas voltas e reviravoltas, volutas e floreados do discurso.
Larguei-o de imediato, mas volvidos poucos meses voltei a pegar-lhe - não havia de vencer-me! Tinha de cumprir o desafio de ler António Lobo Antunes, e ainda para mais esta obra encaixa no perfil de livros de 200 páginas (ou menos) que ando a devorar, porque, de repente, livros maiores do que isso intimidam-me. É um autor nacional - e sei que devo muitas leituras ao universo de autores nacionais, e é um possível candidato a Nobel e queria conhecê-lo antes de receber esse possível galardão. Queria também permitir-lhe a possibilidade de me levar, pelos sentidos, à guerra e ao absurdo do Ultramar.
O maior desconforto foi o de sentir sempre que as frases deveriam terminar - e com grande classe, claras e pujantes - ao quilómetro três, mas vê-las prolongarem-se por mais cinco quilómetros de metáforas desnecessárias e pura agonia, até uma morte estrepitosa. Dei por mim a reler algumas frases que começavam com asas, e que me enchiam o peito de compreensão e assombro, e a cortar o que vinha em acréscimo, e que só servia para deturpar a perfeição do começo. Abaixo dois exemplos desse exercício:
"O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio?"
ou
"O medo de voltar ao meu país comprime-me o esófago, porque, entende, deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas."
Apesar de ter conseguido terminá-lo, e dos vislumbres arrepiantes da genialidade que lhe adivinhava, e que com certeza lhe concede a reputação que conquistou no mundo das letras, acabei por acarinhar as imagens, as ideias, o mundo visto pelos olhos do autor, mas detestei o estilo. Detestei as inúmeras menções a artistas - Vermeer, Picasso, Miró, Chagall -, e a músicos - Coltrane, etc. - e a filmes e atores - James Dean, Humphrey Bogart, etc. Foram demasiadas. Tal era como os relógios derretidos do Dali e tal era magro como os galgos de Velasquéz (parafraseando), e a gabardina transformava senhor tal no Bogart, ou a ganga dava-lhe um ar de James Dean, etc. Já deitava essas menções pelos olhos. Até fui capaz de as seguir, porque adoro arte, mas achei uma exibição desproporcionada de snobismo num livro tão pequeno. Talvez em 1979, quando fui publicado, caíssem melhor.
Acabei por entrar no ritmo, oscilar entre a noite lisboeta onde este ex-médico de guerra tenta engatar uma rapariga, e os horrores que testemunhou na guerra e que vai debitando, acabando por nos elucidar também sobre a sua infância privilegiada e a estrutura familiar comum e até monótona. Achei de grande mestria que consiga saltitar entre o Chiúme e a terra vermelha de África e o vodka no copo em Lisboa, o seu apartamento vazio, a sua vida vazia de entusiasmo de homem de quase meia idade divorciado, enquanto constrói um retrato com pinceladas algo impressionistas (um borrão aqui, outro acolá e as sugestões de sombras, figuras e expressões por detrás - e eu a cair nas metáforas do autor). Estamos ao balcão do bar, e este médico de quem - creio - nem chegamos a saber o nome - está bêbedo, e vai cambaleando em direção à mulher em quem prendeu a atenção nesse dia de semana, o que sugere que nem consegue manter uma ocupação. Vai-se repetindo e revisitando as mesmas ideias, mas em ocasiões surge algo que nos cativa por completo, nos agonia, nos dá a volta ao estômago. E, por todo o livro, há um sentido de absurdo e de desnecessário, e um odor pútrido que exala dos caixões de chumbo dos mortos do ultramar, que sabiam que morriam em vão, por uma causa perdida, e que se perpetua pelo chorrilho de horrores que cometeram - no limiar da loucura tropical - e que testemunharam. Suicídios, minas, estropiados, violações, violências várias, torturas, mesquinhice, cobardia e bravura, tudo em vão. Tudo a terminar nos mesmos caixões de chumbo remetidos à metrópole à qual, depois de voltar, o médico já não sente que pertence.
Não é um livro que me tenha arrebatado por completo, mas é uma narrativa que imprime imagens muito fortes de humanidade e politiquices na nossa mente, e que explora a natureza humana sem filtros nem acanhentos, expondo-a distorcida, cruel, desesperada.
Aconselho como “introdução” ao difícil António Lobo Antunes.
Classificação: 3,5/5*****
Sinopse: A memória das experiências vividas durante a guerra em Angola. A partir de um encontro nocturno, num bar, do narrador com uma mulher, sem nome e sem voz, surge num longo monólogo o percurso de um médico militar que, depois de passar vinte e sete meses em Angola a servir o exército colonial, a reconstituir os corpos explodidos na guerra ou a assistir à sua agonia, regressa à metrópole, perdido numa angústia sem saída.
Sinopse:Novo romance de Rentes de Carvalho. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória trará novas e dolorosas verdades. Romance inédito, nele se conta a história de António Roque, homem atormentado, possesso do demónio de funestas memórias. As imagens do passado que regularmente se apoderam dele transformam-no num monstro capaz dos piores atos. No entanto, a obscura história da irmã e do homem abastado que se servia dela - e que, apesar de morto, continua a instigar-lhe um ódio devastador - não é exatamente como ele pensa que se lembra. Depois de anos emigrado na Alemanha, o Meças regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (a quem detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória revelará novas e dolorosas verdades.
Opinião:
"Criei-me a falar sozinho, a brincar sozinho, forçado a inventar um mundo que, pela fantasia, compensasse o escasso território do pátio em que me isolavam, como se o contacto com os outros fosse um perigo ou desse peçonha.” Este é o primeiro romance que li de J. Rentes de Carvalho, apesar de o próprio, na Feira do Livro de Lisboa do ano passado (2018) me ter aconselhado a começar pelo "Ernestina". Esse fica para depois. Na mesma ocasião, alguém mencionou que o livro projetou imagens muito sombrias na sua mente, e que acabava por ligar as luzes todas de casa à noite, enquanto o lia, nem sequer senti que a maldade desta personagem fosse de cariz tal que o livro me conseguisse roubar o sono. Não senti esse assombro, mas “O Meças” não deixa de ser um retrato pesado, por vezes agoniante e cru de uma realidade rural que continua a ser a do nosso país em 2019. Porém, como em parte fundamentadas as canalhices da personagem principal, acabo por lhe atribuir mais humanidade do que pura vileza. Uma das ideias que o livro desenvolve, e que vai ficar comigo durante os próximos tempos, é a de que existe um desencontro entre a imagem de um meio rural português perante os estrangeiros e os que de fora o vêem, e a realidade daquelas vivências. O Portugal de montes idílicos, de ingénua iliteracia e de brandos costumes, tantas vezes elogiado na comunicação social e romanceado na literatura, não existe em “O Meças”, como não existe para mim nem para todo aquele que tenha tido contacto com o país profundo e visceral. Um Portugal de vinganças, incesto, maus fígados, copos e peneiras. Este é, para mim, a espinha dorsal que dá alento a estas 180 páginas. O autor opta por contar a história a quatro vozes que nos chegam chegam na primeira pessoa, sendo que também surgem trechos narrados por uma voz ausente. António Roque é o Meças, e também o detentor do discurso mais ríspido, mais violento, com rasgos de um Português floreado. Um pouco como se nos chegasse, através dele, o trauma, a dureza, a ausência de remorso, a iliteracia, o preconceito sofrido e o outro, praticado, que é são a essência do livro. Por vezes torna-se difícil acompanhar-lhe os trejeitos de linguagem, mas, terminada a leitura, parece-me que era necessário distinguir esta alma das restantes. A segunda voz é a do filho do Meças, Abel. Sobre esta relação pai e filho: “São sem conta e antigas as razões de não se gostar de um filho, abundam no Velho Testamento, na mitologia grega, com pouco esforço as encontramos à nossa volta”. Esta segunda voz assemelha-se um pouco àquela que pertence à nora do Meças, Isaura. O discurso é mais moderno, escorreito, e o tom mais leve. Por último surge-nos outra voz, num tom límpido e cristalino, nem por isso mais leviano na sua mensagem, e que diria ser a voz a que nos habituamos quando lemos o comum dos romances, sobre pessoas de parte anónima. É quase um discurso universal no qual repousamos depois da verborreia plena de obstáculos do Meças. Gostei da história. É para isto que leio livros: para ser introduzida a cenários, a pessoas, a psiques várias – e vejo-as, neste romance, complexas e arredias –, a dramas e dilemas pessoais. O que procuro nos autores é, sempre, o seu imaginário. Entretenham-me com uma história que me cative e eu regresso. Enfadem-me com vocabulário pedante e eu viro as costas. Apesar de alguma dificuldade em entrar no tom, “O Meças” deixou uma boa impressão das capacidades do seu criador, e estou certa de que, cedo ou tarde, farei a travessia para “Ernestina” com tanta ou maior expetativa. Classificação: 3,5***/*****
Sinopse:Ela nunca imaginou que um escândalo podia ser delicioso...
Theodora Saxby é a última mulher que alguém espera que case com o belo James Ryburn, herdeiro do ducado de Ashbrook. Mas depois de uma proposta romântica diante do próprio príncipe, até a prática Theo fica convencida da paixão do seu futuro duque. Ainda assim, os tabloides dão ao casamento apenas seis meses. Theo ter-lhe-ia dado uma vida inteira... até que descobre que James deseja não o seu coração, e certamente não o seu corpo, mas o seu dote.
A sociedade ficou chocada com o casamento, mas está escandalizada com a separação. James vai para o mar, onde se torna um famoso pirata, e Theo transforma a sua propriedade num negócio florescente. Regressado dos mares, com a tatuagem escandalosa de uma papoila debaixo um olho, James enfrenta agora a batalha da sua vida: convencer Theo de que amava o patinho que desabrochou num cisne. Theo irá descobrir rapidamente que para um homem com a alma de um pirata, tudo vale no amor - ou na guerra.
Opinião:Quem o feio ama, bonito lhe parece
Alturas há em que, debruçada sobre Steinbeck, me pergunto porque vou lendo este género de literatura. E depois há o meu lado romântico, light, que busca mero entretenimento. No fundo, estes romances são quase os enredos da Jane Austen (certo, ela era mestre em retratar a sociedade e em fazer grandes intrigas sociais), mas com um toque... spicy.
Eloisa James tem uma série dedicada aos contos de fadas, e esta será a recriação de "O Patinho Feio". Descobri que, há anos, li Milagre de Amor, e lembro-me de também ter gostado bastante na altura. Agora que penso nesse livro, concluo que a autora tem uma fixação qualquer por seios. Será um homem a escrever sob pseudónimo? É que, há pouco tempo, saiu uma qualquer notícia a dizer que há uma fixação pelos seios das personagens femininas por parte dos escritores nacionais. Achei aquilo uma idiotice. Há fixação de toda a literatura por seios femininos.
Li-o em poucas horas. De fácil leitura e convincente. Sobretudo porque não há falsos mal-entendidos. Achei os protagonistas honestos e palpáveis. No afecto e na atracção física. Uma verdadeira ode ao dito popular. Causou-me certa melancolia.
James é coagido pelo pai a casar-se com a jovem de quem o pai foi tutor, durante anos. Sucede que sempre a vira como uma irmã, pelo que é imune à fama de feia de que a rapariga é vítima na sociedade inglesa. Theodora é acusada de ser feia como um homem, e, ao longo do livro, são vários os momentos em que é humilhada por causa dessa sua falta de viçosidade. A relação dos dois é de grande companheirismo, daí que ela se sinta tão traída ao descobrir os verdadeiros motivos por detrás da proposta de James. Claro que, com a proximidade e já munido do carinho que sempre nutriu pela sua companheira de brincadeiras, James encontra inúmeros detalhes dignos de admiração em Theo, só não lhe agrada a imposição do pai. Mas o enredo é também sobre a dignidade de Theodora e o seu orgulho ferido, sendo que tudo fará para ser admirada no meio a que pertence, ultrapassando as próprias inseguranças e receios.
Bastante satisfatório, dentro do género. Divertido, com apontamentos históricos interessantes (como os cortes de cabelo à Titus e à Brutus). A autora trabalhou bem na química entre as duas personagens. Porém, houve alguns momentos tolos e algum drama exagerado, e isso rouba o fio à meada. O tempo contrai-se, e os ódios passam rapidamente a paixão, a zanga a perdão e o perdão não tarda em dar azo à capitulação. Tudo demasiado rápido para esta leitora que, com a idade, começou a dar mais valor ao compasso do tempo entre a acção.
Ainda assim, aconselho. Trouxe-me de volta as noites em que lia dois livros de seguida, até de madrugada, enquanto queimava as pestanas na luminosidade do ecrã, fascinada com este mundo de folhos e homens que montam a cavalo e são absurdamente masculinos e inteligentes. Ai, Jesus. Perdoa-me por ser tão básica...
Está em promoção no Pingo Doce (-50% sobre o PVP, salvo erro), embora eu teha lido em e-book, a 01/06/18.
Opinião: Limões na Madrugada éuma incursão da Carla M. Soares num estilo que (julgo) lhe é novo. Digo julgo porqueainda não li A Chama ao Vento. Em termos de construção, parece-me um romance maissimples do que os anteriores. Em termos emotivos, porém, é bem mais pesado.A história é intemporal, o estilo narrativo é introspetivo, as viagens edescrições são interessantes. O enredo centra-se em Adriana, que vem daArgentina (contrariada) para receber uma herança da família (que recebecontrariada). Adorei o retrato do Porto atual, do Porto invadido de turistas efulgurante, que tem encantado toda a gente pelo globo fora. Gostei de passearpelas suas ruas, e de visitar este seu casarão, que me pareceu tão palpável.Também apreciei a história (um tanto obscura) desta família, as muitas nuances dapersonalidade de cada um, o preto e o branco num cinzento muito humano. Gosteiainda mais da vida pessoal da personagem principal, tão fora da caixa, umalufada de ar fresco na literatura. No entanto, senti que a dado momentofiquei encurralada nas mesmas dúvidas da personagem principal, e que a suacontrariedade me causava exasperação. Lamentei a sua falta de curiosidade pelopassado da própria família – ou a falta de coragem para explorá-lo. Tambémsenti que a personagem que a acompanha no Porto, à descoberta, é uma espécie degrilo falante, para que a Adriana possa expressar-se e trocar ideias comalguém, mas não o senti muito vívido, nem muito intenso na narrativa. Tambémos frames do passado eram por vezes pouco nítidos, narradospor vozes externas ou pela imaginação da Adriana, ou seja: não há um mergulhonessas vidas, há apenas um aflorar das águas, um espelho a mostraracontecimentos de há trinta anos, mas nunca ouvimos aquelas vozes nem sentimoso pulsar daquelas vidas. É normal, uma vez que é um livro na primeira pessoa.Porém, sinto que essa escolha da autora conteve a empatia que poderia vir asentir pelos Branco.Considerei muito interessante a premissaque retirei do livro: a de que somos um passado tantas vezes desconhecido,tantas vezes nebuloso, e que evitamos as perguntas e os caminhos que o deixam adescoberto.Continuarei a ler a Carla, quiçá de voltaao estilo a que nos habitou, ou a acompanhá-la nestas incursões por novos modosde contar estórias.Num jogo magistralmenteimaginado pela autora, entre a vida atual de Adriana e os ecos do Portugalantigo, machista e violento dos seus pais e avós, esta história, de uma famíliae dois continentes, é uma viagem entre o presente e o passado, uma ponte sobreo fosso cultural que separa as gerações, um tratado sobre tudo aquilo que afamília pode fazer à vida de um só indivíduo.Entre a sombra e a luz,deixando que por vezes os silêncios falem mais alto do que as palavras, Limõesna Madrugada é um romance sobre o amor incomum, o poder da família e anecessidade da coragem.Classificação: 3,5/5
Sinopse: Ansiosa por regressar à Argentina, mas presa a Portugal, distante do homem que ama e da mulher com quem vive, Adriana está perante um dilema universal e intemporal: manter-se comodamente na ignorância ou desvendar o passado da família, como se de um caso policial se tratasse, enfrentando assim aquilo de que andou a fugir toda a vida, por mais doloroso que seja.
Opinião:"Porque será que, quando te rendes, me sinto sempre como se fosse eu que tivesse sido conquistado?"
Foi a segunda vez que li este livro, mas não sabia quando o comprei que já o tinha tido nas mãos. Jennifer é noviça numa abadia na Escócia, e portanto católica, membro de um clã e inimiga declarada dos ingleses. Royce é o braço direito do rei Henrique nos seus avanços bélicos contra a Escócia, difere em princípios, religião e patriotismo. Neste ponto dou valor à escritora por toda a pesquisa que evidentemente levou a cabo, e por todos os detalhes que nos fornece. Nada a dizer também a nível de contexto histórico (estamos em 1499), e dos contrastes entre a Escócia e a Inglaterra, uma sustentada por clãs temerários e orgulhosos, outra sustida pela ganância de nobres que enriquecem pilhando a outra e aumentando os domínios da sua coroa. É época de torneios, de agitação política, de catolicismo fervoroso enquanto Henrique ameaça virar as costas a Roma e fundar a sua própria religião, de fortificações, cercos, violações e pilhagens. A minha embirrância começa logo com o nome da personagem principal: Jennifer. Uma rápida incursão na wikipédia diz que é a adaptação de Guinevere, adaptada na língua inglesa durante o sec. XX. História também é um bocadinho de intuição, e não consigo imaginar um diálogo entre a princesa Cátia e a duquesa, a senhora Soraia, enquanto as assiste a boa aia Jéssica, um doce de moça. Só neste instante fui ver a origem do nome, mas faz-me espécie que não se tenha consultado uma lista de nomes tradicionais escoceses da época, de modo a chamar-lhe Heather, Fiona ou Arabella. Irrita-me que algumas pessoas fiquem agora com a impressão de que alguém se chamava Jennifer no sec. XV. Depois, o livro começou mais ou menos bem, mas cedo se revelaram as intenções da autora: despejar todo e qualquer conflito possível para o meio do enredo. Então ele é raptos, ele é fugas, ele é conspirações, ele é traições, ele é drama, ele é mal-entendidos, ele é tudo. Se terminasse na página 300, com tudo um pouco melhor gerido, teria sido menos exasperante. Sobre cada duas páginas de felicidade amorosa, abatiam-se cinquenta de uma nova quezília. E, pior, aquela personagem feminina é de bradar aos céus. A autora não me convenceu de modo algum. A pessoa pode cortar com as convenções da sua época, mas só até certo ponto. Não me importo quando os livros têm obstáculos, quando os problemas se sucedem, mas ao menos o coração das personagens principais tem de ser leal, tem de ser constante. Aqui dei por mim, muito cedo, a perguntar-me o que é que o famoso Lobo Negro via nesta Jenny: eram os seios, os maravilhosos olhos azuis, o ultrasuave cabelo ruivo, o sorriso e os dentes brancos, e a coragem. Sempre a coragem e o desafio, louvados ao ponto do rolar a vista. E o retrato incongruente da noviça de dezassete anos virgem e pouco vivida, enclausurada, que brincava com os rapazes e não teme o guerreiro inglês que todos temem.E Royce? Royce tudo faz por ela, em tudo a poupa, sorri muito de repente e tem atitudes românticas. Tudo engole, o que, para mim, é difícil de entender e desmancha a consistência da personagem. Não me conseguiram vender este livro. Ele é um mártir às mãos da criança mimada e bipolar que McNaught aqui descreve. O perfil da jovem ingénua mas fogosa, corajosa mas insegura, determinada mas submissa, orgulhosa e que humilha, a de coração bondoso que perdoa todas as provações a que a sujeitam, não funciona para mim. Salva-se a tia Elinor e o gigante Arik; emparelhados puseram-me a rir. Lembrou-me os livros da Sveva Casatti Modignani, que devorei com os meus 14 aninhos, e que cedo abandonei porque me apercebi de que havia um padrão nas personagens femininas: eram lindas, maravilhosas, ricas mas vindas de famílias operárias, toda a gente lhes admirava a fibra, a garra, o ardor com que se batiam pelo que queriam. Todos as admiravam e lhes teciam os maiores elogios. E elas ali... sem tomarem uma decisão, sem fazerem nada que não deslumbrarem um industrial da moda milanês. Era muita conversa para pouca acção. As atitudes das suas Giulias nunca estavam à altura da admiração que lhes projectava e fartei-me. Uma nota para a tradução portuguesa, que só melhora depois da página 200. Ler "positivamente carregado de galhos", ou "terna ingénua", "doce coração", "esbelto pescoço", etc., foi embaraçoso. Também achei que a culpa é em parte do manuscrito original, porque enjoei o número de vezes em que a escritora repetiu, não fôssemos nós esquecer, que o homem era enorme e tinha ombros muito largos, e que era bronzeado e tinha dentes muito brancos e olhos cinzentos. E ela? Os olhos dela lembram veludo molhado (não importa a cor, desde que molhado), ou safiras líquidas (?), e também tem os dentes muito brancos, a pele leitosa, os seios e os lábios generosos, a cintura muito fina, os cabelos acobreados.Foi tudo repetido ao ponto do enjoo. Mas ai, como era fácil amar no séc. XV! Sinopse: Chamam-lhe o Lobo Negro. Nunca perde uma batalha. Temido por todos, Royce Westmoreland, duque de Claymore, é um guerreiro inglês intrépido. Tão intrépido que comete a loucura de manter sequestrada a filha do seu maior rival, o chefe do poderoso clã escocês Merrick. Jenny Merrick pode ter sido raptada do colégio de freiras que frequentava, mas não vai ficar de braços cruzados. A bela e fogosa jovem tenciona lutar com unhas e dentes e destruir este inglês grosseiro que se julga dono de tudo - e o facto é que consegue enfurecê-lo melhor do que ninguém. Quando, por decreto real, são obrigados a casar, espera-se o pior. A feroz batalha de vontades, porém, não tarda a dar lugar a uma paixão escaldante, mas muito breve… Agora, após uma devastadora traição e uma série de mal-entendidos, Jenny vai ter de decidir a quem deve a sua lealdade… Um clássico romântico. Uma das obras mais aclamadas da bestseller Judith McNaught.
Sinopse: Gregory Bridgerton procura a sua alma gémea. Acredita fervorosamente no amor verdadeiro, por isso não tem dúvidas de que saberá reconhecer a mulher da sua vida com facilidade. E, de facto, ao conhecer Hermione Watson, o jovem fica rendido. Mas, oh... que tragédia!, a estonteante Hermione está apaixonada por outro. É aí que entra Lucy Abernathy, a melhor amiga dela, sempre disposta a ajudar. Mesmo quando percebe que ela própria sucumbiu ao incurável romantismo de Gregory. Infelizmente, existe um outro “mas”... Pois Lucy está noiva, e tenciona colocar a honra acima dos seus sentimentos. Quanto a Gregory, no momento em que finalmente compreende que os desígnios do coração são mais intrincados do que pensava, já a sua amada vai a caminho do altar. Será que é demasiado tarde? "A Caminho do Altar" é o oitavo volume da deliciosa série protagonizada pela família Bridgerton.
Opinião:É um 3,5, mas não creio que chegue a 4. Penso que seja o encerrar da série Bridgerton, que me entreteu durante longas horas, ao longo de 8 livros com pelo menos 350 páginas cada. Gostaria de ter tido um vislumbre de toda a família junta, mas a autora não nos brindou com esse bombom. Não faz mal, teria sido tudo demasiado perfeito. Não deve ser fácil criar oito personagens principais masculinos e oito personagens principais femininos numa série em que os cenários e as circunstâncias pouco se alteram. Gabo-lhe isso. Porém, quando chegamos a Gregory e Lucinda, só restam os pequenos detalhes, porque as personalidades fortes já tinham todas desfilado nos outros volumes. Gregory é o quarto irmão Bridgerton (Anthony, Bennedict e Colin já encontraram a felicidade) e, dado o historial da família, está convicto de que encontrará o verdadeiro amor. Mas isso do amor é uma estrada tortuosa, e tantas vezes uma pessoa se engana a si própria porque não é capaz de ver fundo o suficiente dentro de si próprio...
Não é o pior livro da série (não me recordo do da Eloise e do da Hyacinth, pelo que considero que foram mais fracos), mas está longe das emoções proporcionadas pela Daphne e o Simon, a Penelope e o Colin, ou mesmo a Sophie e o Bennedict. Ainda assim, a escritora foi competente ao criar a intriga principal, o enredo foi denso q.b. Claro que tudo evolui à velocidade da luz - estes amores-relâmpago... Mas aqui entende-se que há um esforço para se criar a ideia de "amor construído". Ainda que só tenham passado quatro ou cinco dias desde que se conhecem... Vou sentir falta desta família. Estes livros trazem-me alguma paz, porque dão sempre a ilusão de que os nossos sonhos se vão cumprir e que o final feliz esta aí para todos. Classificação: 3,5***/**
Opinião: Memória das Minhas Putas Tristes é um livro que cobicei durante anos. Depois da minha primeira experiência com Gabriel García Márquez, em que não consegui levar o Cem Anos de Solidão a bom termo, queria dar uma segunda oportunidade ao tão-aclamado Nobel Colombiano. Este livro pareceu-me o ideal, pelo tamanho, o título e a sinopse. Agora fico aliviada por ter lido o sublime O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de Uma Morte Anunciada antes deste livro. Não posso considera-lo mau, por ter vindo ao mundo pelo punho de quem veio, mas falta-lhe a naturalidade poética e o embalo da narração dos outros. Li-o de enfiada, o que me permitiu seguir todos os acontecimentos numa tarde, e não me relacionei. Em parte o tema descrito é controverso, difícil de digerir – um velho de noventa anos determinado a dormir com uma adolescente virgem -, por outro lado, a ideia de um amor nascido da criança que dorme e do velho que a observa desnuda é-me demasiado repulsiva. Ainda assim, e reconhecendo no autor a valentia de ter abordado um tema tão desconfortável, tentei sentir. Passei o livro a tentar colocar a hipótese de um homem de noventa anos nutrir um sentimento de paixão e obsessão por uma criança de catorze. Depois tentei descortinar de onde lhe vinha tanta energia – e quem sabe fosse o fôlego desse amor a guiar-lhe os passos e a equilibrá-lo sobre a bicicleta. Depois tentei perceber se a velhice não lhe estaria a toldar a lucidez, ou se não estariam a aproveitar-se dele, em vez de ser ele a tentar aproveitar-se da jovem. Então ocorreu-me que o amor pode ser destrutivo em qualquer idade, sob qualquer circunstância, e que para este desconhecido (Márquez não o baptizou) a tragédia vem mais tarde, a fim de conferir algum ânimo a uma vida de emoções amenas. Por último julguei entender que o autor talvez reflectisse sobre aquilo a que a solidão nos leva – ao esvaziar dos bolsos, ao percorrer das ruas em busca de um rosto, à procura de contacto, de um tipo qualquer (o de um gato ou o de uma proprietária de uma casa de meninas). Existe ainda a possibilidade de o autor nem ter um motivo para ter escrito o livro, e o tenha apenas feito porque a história lhe exigia ser contada. E nesse ponto considero que o mesmo não me aqueceu nem arrefeceu, e não experimentei nenhum dos assomos que me perturbaram aquando da leitura de O Amor Nos Tempos de Cólera.
Classificação: 3***/**
Sinopse:"Memória das Minhas Putas Tristes" conta a história de um velho jornalista de noventa anos que deseja festejar a sua longa existência de prostitutas, livros e crónicas com uma noite de amor com uma jovem virgem. Inspirado no romance "A Casa das Belas Adormecidas" do Nobel japonês Yasunari Kawabata, o consagrado escritor colombiano submerge-nos, num texto pleno de metáforas, nos amores e desamores de um solitário e sonhador ancião que nunca se deitou com uma mulher sem lhe pagar e nunca imaginou que encontraria assim o verdadeiro amor. Rosa Cabarcas, a dona de um prostíbulo, conduzi-lo-á à adolescente com quem aprenderá que para o amor não há tempo nem idade e que um velho pode morrer de amor em vez de velhice. A escrita incomparável de Gabriel García Márquez num romance que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão.
Opinião: É raro o português que responde certo quando se pergunta quem foi o último rei de Portugal, mas todos sabem, na ponta da língua, que o Navegador que descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral. E Cabral há-de deter essa honra, oficialmente, para sempre. Porque assim decidiram os monarcas portugueses no final do século XV, num ambiente de intrigas e conspirações nas cortes europeias. A grande competição que se seguiria pelas riquezas do Novo Mundo obrigava a secretismo e a muita cautela. Segundo os documentos em que Duarte Nuno Braga se baseou para escrever “A Confissão do Navegador”, a descoberta do Brasil foi tudo menos acidental. Foi uma grande empresa da realeza Portuguesa, no seguimento da descoberta dos arquipélagos, do desbravamento da costa Africana e da busca incessante pela rota marítima para a Índia. O livro parece debruçar-se sobre dois momentos distintos em que Duarte Pacheco Pereira pôs a sua vida ao serviço do país: o primeiro determinaria as exigências de Portugal aquando das negociações para o Tratado de Tordesilhas (1494: o Mundo fica dividido em dois, cada metade a ser concedida aos Portugueses ou aos Espanhóis para exploração de novos territórios). O segundo solidifica o comércio entre o ocidente e o oriente, porque, como aliados do rajá de Cochim, houve necessidade de combater as pretensões dos mouros na Índia e de acabar com a sua sobranceria nessas paragens. De ambas as vezes, o autor narra as dificuldades, as estratégias, os receios de um homem que pôs a vida ao serviço do reino, e que com isso alcançou a glória e sofreu amargos desgostos e desconsiderações, em parte pelo absoluto sigilo em torno das suas missões.
O trabalho histórico está bem conseguido – sobretudo a nível de vocabulário, técnicas de navegação, conhecimentos marítimos, cartografia, etc. Surgem algumas pequenas falhas a limar por parte do autor em livros futuros (a menção a eucaliptos em Portugal no séc. XV, por exemplo, quando apenas chegaram ao nosso reino em 1860, aproximadamente). Para uma estreia no romance, a narrativa é bem ritmada – um tanto apressada, por vezes, mas não é necessário enrolar. Os diálogos demonstram a formalidade da época, pelo que de início podem soar um pouco forçado mas depressa nos sintonizamos para as vozes dessa época. Não é nenhuma epopeia que aqui se narra, mas sim uma missão secreta que o país, ainda hoje, ignora grosseiramente. Eu própria desconhecia esse facto até ler a sinopse deste romance. Da próxima vez que me perguntarem quem descobriu o Brasil, responderei “Duarte Pacheco Pereira, em 1493”. É sempre pertinente um livro que chega e muda a nossa perspectiva do que nos era sólido, e agrada-me saber que a História de Portugal continua prenhe de eventos como este. Classificação: 3,5***/**
Sinopse: Corre o ano de 1493. D. João II convida o navegador Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. Joga-se o destino de Portugal e do próprio Duarte Pacheco Pereira, incumbido de uma missão secreta que o leva aos confins do Atlântico. Neste empolgante romance histórico desvenda-se a figura pouco conhecida do navegador descrito por Camões como o «Aquiles lusitano». Do perigo dos mares ao calor da Índia e da batalha, somos levados para uma época envolta em segredos, conspirações e relações proibidas. A ambição de um reino muda a vida de um homem dividido numa busca espiritual entre a lealdade e o amor.