#312 SILVA, Filipa Fonseca, Admirável Mundo Verde

Sinopse: Num futuro não muito distante, um grupo de activistas pelo clima radicaliza-se e decide derrubar o sistema. Dotado de uma eficaz máquina de propaganda, que lhe garante o apoio popular, consegue chegar ao poder e impor uma sociedade totalmente verde. Mas a que preço?
Depois do sucesso de "E Se Eu Morrer Amanhã?" e de "O Elevador", nomeados para melhor livro do ano e em adaptação para filme, Filipa Fonseca Silva traz-nos um romance distópico electrizante, que levanta questões incontornáveis, como a emergência climática e a polarização de uma sociedade à deriva.
Opinião: Admirável Mundo Verde, com uma capa magnífica e poderosa que põe na gaveta os preconceitos de "romance no feminino", beneficiou de uma questão: é que estou a ler 1984 [abandonei] enquanto o lia, e às tantas os universos distópicos recordavam-me o outro, e eu tinha de me situar. Acho que é um bom elogio dizer que, por vezes, na minha cabeça, não sabia se tinha acabado de ler palavras escritas pela Filipa ou ideias de George Orwell.
A ideia de uma ditadura ecológica com base em fundamentalismos ambientais é tão pertinente quanto audaciosa. A autora deu-se ao trabalho de conferir várias dimensões às personagens - bem como à própria causa ambiental -, promovendo uma reflexão muito necessária neste momento da nossa civilização. Infelizmente, acho que o livro da Filipa estará cada vez mais atual nas próximas décadas, e a ideia de surgirem organizações como as Brigadas Verdes e os Estudantes pelo Planeta, com ações radicais, desesperadas, vingativas e partindo de um princípio de justiceiros, pode muito bem tornar-se real ainda no nosso tempo de vida.
Torci muito pelo trio a quem a autora chamou de Santíssima Trindade a determinada altura. Além da escrita fluida, da imaginação prodigiosa, vê-se que é um livro escrito com paixão e conhecimento de causa, com preocupação genuína pelos dois lados da moeda - a desconsideração pelos avisos de emergência ambiental e o radicalismo a que essa atitude pode conduzir.
Gostei muito das personagens, das suas preocupações e das forças que iam buscar não se sabe bem onde, e achei que é um livro com momentos muito duros e reflexões carregadas de desesperança que, ainda assim, nos recordam de como o ser humano se adapta e encontra sempre resiliência, mesmo nos momentos mais negros da existência. O lado mais cruel do livro é precisamente a verosimilhança com que a autora teceu os cenários, as personagens, os rumos políticos e sociais desta questão tão urgente.
A natureza humana tem superado tudo e imperado sobre o planeta, impondo-se a outras espécies e dobrando quase tudo aos seus interesses. Contudo, o clima impõe-se como o inimigo invencível que pode muito bem vir a condenar a hegemonia do Homem no planeta Terra.
Classificação: 5/5*****