#311 SALEM, Tatiana Levy, Vista Chinesa
Opinião: Em História, estou a descobrir que uma investigação bem feita segue uma metodologia transdisciplinar, que inclui várias áreas de estudo das ciências sociais, incluindo antropologia, psicologia, sociologia, etc. Ao ler Vista Chinesa, dei por mim a aplicar a mesma teoria a um livro que é um tratado de literatura com ingredientes de todas essas áreas.
Li este livro em 3 horas, perplexa por só agora me ter cruzado com esta obra-prima.
"Eu estava viva, mas ainda não sabia se a vida seria possível."
O livro é um colosso de literatura, favorecido pela economia do número de páginas, escritas a uma mesma cadência, como um fôlego único e imersivo. O fluxo de consciência seria a única abordagem possível para uma obra que é uma viagem atribulada à psique de uma mulher destruída, fraturada, vítima daquilo que é o maior terror do sexo feminino e que, com a força que nos é intrínseca, continua.
"Não deve haver aflição pior do que o desconhecimento tangível da dor de um filho."
O livro deixou-me agoniada, mas também maravilhada pela destreza da prosa, a dureza da excursão aos abismos de uma mulher comum. A autora ilustra uma cidade, uma mulher, um círculo social, preocupações transversais a todos nós, um sistema podre e exasperante que massacra os cidadãos nos seus momentos de maior fragilidade. Tudo à mão-livre, ao sabor dos mergulhos e dos voos de Júlia que, numa tarde de terça-feira, decidiu ir correr sozinha no Rio de Janeiro.
"Que a cura talvez venha pelos detalhes. São os detalhes que me vão livrar do todo."
É de um realismo assombroso, as divagações, os dilemas, as dúvidas, as certezas, as dores e a coragem da personagem principal tornam-se também nossas. Apesar disso, é consistente, por vezes labiríntico, claustrofóbico, constrangedor, provocador, acusador. Em tão poucas páginas, a autora fez um trabalho notável de solidez irrepreensível, e senti-me orgulhosa por descobrir uma escritora assim.
"Mas a dor dos outros não diminuía a minha."
Vista Chinesa é um retrato psicológico de violência e cura desconcertante, mas necessário, que não se permite cair em clichés nem pincelar de rosa o que de mais negro existe na natureza humana. É literatura da melhor que o nosso século será capaz de produzir.
Sinopse: Estamos em 2014. Euforia no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro. Copa do Mundo prestes a acontecer, Olimpíadas de 2016 à vista. Autoestima da cidade nas alturas. Sensação de que o país havia encontrado um novo caminho. Júlia é sócia de um escritório de arquitetura que está planejando alguns projetos na futura Vila Olímpica. No dia de uma dessas reuniões com a prefeitura, Júlia sai para correr no Alto da Boa Vista, um enclave de Mata Atlântica no meio da grande cidade. A certa altura, alguém encosta um revólver na sua cabeça e a leva para dentro da mata, onde é estuprada.
Deixada largada no meio da floresta, ela se arrasta para casa, onde uma amiga lhe presta os primeiros socorros. O rosário de dor, sensação de imundície e "culpa" é descrito com crueza e qualidade literária poucas vezes vistas em nossa ficção. Assim como os percalços junto à polícia para tentar encontrar o criminoso numa sociedade em que basta ser pobre para parecer suspeito. Mas nem tudo é horror e escuridão. A história é narrada para os filhos da protagonista anos depois do terrível episódio. Os fatos retrocedem e avançam no tempo. Temos o início de namoro de Júlia, sua lua de mel numa praia paradisíaca, a gestação. São momentos em que habilmente a autora constrói outra visão do corpo e da sexualidade de Júlia como uma prova, para quem cometeu a violência e para si mesma, de que ela é ainda a dona da própria história.
Classificação: 5/5*****