#310 SANTOS, Mafalda Santos, Enquanto o Fim Não Vem

Sinopse: O inspetor Lobo quer descobrir quem matou Laura. Afonso quer que o deixem escrever o que ele gosta. Gabriela quer que o inspetor Lobo faça o seu trabalho e quer que Afonso escreva o que lhe pedem.
Mas Laura continua morta, os pais dela pressionam as forças policiais, e é preciso apanhar o culpado. Ou serámais que um? Que forças estranhas os rodeiam sem que deem por nada?
Quando Afonso perde a namorada, Júlia, num horrível acidente, vê no luto a oportunidade que precisa para parar de escrever, sem ninguém contestar.
Se o leitor acha que já percebeu este livro, podemos afirmar, com toda a certeza, que não. Porque quando pensa que descobriu o que se passou, Mafalda Santos abre outra cortina com outra realidade, desafiando-nos.Mas quando o fim, finalmente, chegar,pode ter a certeza de que não passará despercebido.
Opinião: A minha estreia nas obras da Mafalda Santos não podia ser mais auspiciosa! Costumo hesitar muito em dar cinco estrelas a um livro, mas a viagem que este me proporcionou foi tão incrível que mas arrancou.
Sei que a Mafalda Santos está ligada ao teatro, ao mundo para lá das cortinas do palco. Neste romance, leva-nos pelos bastidores, mas também pela plateia, e direitos à secretária dos criadores.
A sinopse promete-nos uma investigação, mas depressa esse mote deixa de ser o fio condutor do livro. O que nos orienta ao longo desta narrativa é a profunda reflexão que oscila entre o criador e o produto da sua imaginação, aqui questionada uma e outra vez, em jogos de espelhos, truques de ilusionista, cortinas que se fecham e voltam a fechar sobre o palco. A autora tira-nos várias vezes o chão, e o final é tão satisfatório, tão imprevisível e, ainda assim, em linha com a história, que não me perdoei por não o ter antecipado: o que apenas significa que a autora soube escondê-lo convenientemente do leitor, até ao twist final.
Para mim, isto é a nova literatura portuguesa. Sem fórmula. Sem português inalcançável. Escrita com fluidez, com naturalidade, diálogos credíveis, vivências e rotinas com as quais conseguimos facilmente identificar-nos. Um texto limpo, sem floreados desnecessários, que ainda assim convida à reflexão e nos inquieta e destabiliza. Li-o como escritora que também sou, e adorei a premissa principal. Adorei, acima de tudo, a conclusão que a autora deu a esta obra tão peculiar.
Aconselho vivamente a quem gosta de ler, e mais ainda a quem duvida da qualidade das autoras nacionais!
__________________________
Classificação: 5/5*****