Sinopse: Num futuro não muito distante, um grupo de activistas pelo clima radicaliza-se e decide derrubar o sistema. Dotado de uma eficaz máquina de propaganda, que lhe garante o apoio popular, consegue chegar ao poder e impor uma sociedade totalmente verde. Mas a que preço?
Depois do sucesso de "E Se Eu Morrer Amanhã?" e de "O Elevador", nomeados para melhor livro do ano e em adaptação para filme, Filipa Fonseca Silva traz-nos um romance distópico electrizante, que levanta questões incontornáveis, como a emergência climática e a polarização de uma sociedade à deriva.
Opinião:Admirável Mundo Verde, com uma capa magnífica e poderosa que põe na gaveta os preconceitos de "romance no feminino", beneficiou de uma questão: é que estou a ler 1984 [abandonei] enquanto o lia, e às tantas os universos distópicos recordavam-me o outro, e eu tinha de me situar. Acho que é um bom elogio dizer que, por vezes, na minha cabeça, não sabia se tinha acabado de ler palavras escritas pela Filipa ou ideias de George Orwell.
A ideia de uma ditadura ecológica com base em fundamentalismos ambientais é tão pertinente quanto audaciosa. A autora deu-se ao trabalho de conferir várias dimensões às personagens - bem como à própria causa ambiental -, promovendo uma reflexão muito necessária neste momento da nossa civilização. Infelizmente, acho que o livro da Filipa estará cada vez mais atual nas próximas décadas, e a ideia de surgirem organizações como as Brigadas Verdes e os Estudantes pelo Planeta, com ações radicais, desesperadas, vingativas e partindo de um princípio de justiceiros, pode muito bem tornar-se real ainda no nosso tempo de vida.
Torci muito pelo trio a quem a autora chamou de Santíssima Trindade a determinada altura. Além da escrita fluida, da imaginação prodigiosa, vê-se que é um livro escrito com paixão e conhecimento de causa, com preocupação genuína pelos dois lados da moeda - a desconsideração pelos avisos de emergência ambiental e o radicalismo a que essa atitude pode conduzir.
Gostei muito das personagens, das suas preocupações e das forças que iam buscar não se sabe bem onde, e achei que é um livro com momentos muito duros e reflexões carregadas de desesperança que, ainda assim, nos recordam de como o ser humano se adapta e encontra sempre resiliência, mesmo nos momentos mais negros da existência. O lado mais cruel do livro é precisamente a verosimilhança com que a autora teceu os cenários, as personagens, os rumos políticos e sociais desta questão tão urgente.
A natureza humana tem superado tudo e imperado sobre o planeta, impondo-se a outras espécies e dobrando quase tudo aos seus interesses. Contudo, o clima impõe-se como o inimigo invencível que pode muito bem vir a condenar a hegemonia do Homem no planeta Terra.
Opinião: Em História, estou a descobrir que uma investigação bem feita segue uma metodologia transdisciplinar, que inclui várias áreas de estudo das ciências sociais, incluindo antropologia, psicologia, sociologia, etc. Ao ler Vista Chinesa, dei por mim a aplicar a mesma teoria a um livro que é um tratado de literatura com ingredientes de todas essas áreas.
Li este livro em 3 horas, perplexa por só agora me ter cruzado com esta obra-prima.
"Eu estava viva, mas ainda não sabia se a vida seria possível."
O livro é um colosso de literatura, favorecido pela economia do número de páginas, escritas a uma mesma cadência, como um fôlego único e imersivo. O fluxo de consciência seria a única abordagem possível para uma obra que é uma viagem atribulada à psique de uma mulher destruída, fraturada, vítima daquilo que é o maior terror do sexo feminino e que, com a força que nos é intrínseca, continua.
"Não deve haver aflição pior do que o desconhecimento tangível da dor de um filho."
O livro deixou-me agoniada, mas também maravilhada pela destreza da prosa, a dureza da excursão aos abismos de uma mulher comum. A autora ilustra uma cidade, uma mulher, um círculo social, preocupações transversais a todos nós, um sistema podre e exasperante que massacra os cidadãos nos seus momentos de maior fragilidade. Tudo à mão-livre, ao sabor dos mergulhos e dos voos de Júlia que, numa tarde de terça-feira, decidiu ir correr sozinha no Rio de Janeiro.
"Que a cura talvez venha pelos detalhes. São os detalhes que me vão livrar do todo."
É de um realismo assombroso, as divagações, os dilemas, as dúvidas, as certezas, as dores e a coragem da personagem principal tornam-se também nossas. Apesar disso, é consistente, por vezes labiríntico, claustrofóbico, constrangedor, provocador, acusador. Em tão poucas páginas, a autora fez um trabalho notável de solidez irrepreensível, e senti-me orgulhosa por descobrir uma escritora assim.
"Mas a dor dos outros não diminuía a minha."
Vista Chinesa é um retrato psicológico de violência e cura desconcertante, mas necessário, que não se permite cair em clichés nem pincelar de rosa o que de mais negro existe na natureza humana. É literatura da melhor que o nosso século será capaz de produzir.
Sinopse: Estamos em 2014. Euforia no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro. Copa do Mundo prestes a acontecer, Olimpíadas de 2016 à vista. Autoestima da cidade nas alturas. Sensação de que o país havia encontrado um novo caminho. Júlia é sócia de um escritório de arquitetura que está planejando alguns projetos na futura Vila Olímpica. No dia de uma dessas reuniões com a prefeitura, Júlia sai para correr no Alto da Boa Vista, um enclave de Mata Atlântica no meio da grande cidade. A certa altura, alguém encosta um revólver na sua cabeça e a leva para dentro da mata, onde é estuprada. Deixada largada no meio da floresta, ela se arrasta para casa, onde uma amiga lhe presta os primeiros socorros. O rosário de dor, sensação de imundície e "culpa" é descrito com crueza e qualidade literária poucas vezes vistas em nossa ficção. Assim como os percalços junto à polícia para tentar encontrar o criminoso numa sociedade em que basta ser pobre para parecer suspeito. Mas nem tudo é horror e escuridão. A história é narrada para os filhos da protagonista anos depois do terrível episódio. Os fatos retrocedem e avançam no tempo. Temos o início de namoro de Júlia, sua lua de mel numa praia paradisíaca, a gestação. São momentos em que habilmente a autora constrói outra visão do corpo e da sexualidade de Júlia como uma prova, para quem cometeu a violência e para si mesma, de que ela é ainda a dona da própria história.