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Castelos de Letras

Em torno das minhas leituras!

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Em torno das minhas leituras!

#222 NÚNCIO, Maria José da Silveira, Brincadeiras de Irmãs

Sinopse: «E, por vezes, dava-me ideia de que tu, que és a minha irmã, sabias. Que, apesar do meu silêncio e das palavras que não se desprendiam, estranguladas na garganta, tu sabias.»


Partindo da morte de um antigo primeiro-ministro, figura prestigiada e reconhecida na sociedade, desvendam-se os segredos familiares que, em noites longas e corredores escuros, engendraram a complexa relação entre duas irmãs, presas numa teia de silêncios e entreditos, em que se confundem amor e raiva, medo e culpa, vingança e perdão.

Opinião: Já anteriormente havia lido parte de Calor, da mesma autora, e verifico que o tipo de narrativa é semelhante em "Brincadeiras de Irmãs".


Creio tratar-se de mais um caso de fluxo de consciência, em que as personagens estão cativas de uma espiral vertiginosa de acontecimentos, geralmente pouco relevantes, e em que o leitor vai extraindo o sumo dos factos que importam e que contribuíram para o trauma, a dor, a omissão em que as personagens que nos oferecem este discurso incorrem. Julgo não proferir um disparate se disser que, nestes casos, estamos sempre perante discurso direto, com um narrador presente e emocionalmente instável, incapaz de se libertar dos seus fantasmas, enleado em pensamentos circulares e claustrobóficos. Gostei do tema, da visão a partir da qual a história nos é oferecida - uma irmã, a outra - a autora parece-me prolífera em escolher assuntos pertinentes, dolorosos, do tipo que retalha famílias e corrompe pessoas que, de outro modo, seriam perfeitamente comuns e bem inseridas na sociedade. Penso que será o caso do seu O que se cala é como se não existisse, que aproveito para elogiar, mesmo sem ter lido, por saber que tem como figura central uma mulher magoada e vítima de circunstâncias difíceis. Ainda bem que, por fim, a mulher quebrada é tema na literatura nacional.

É um livro pequeno, numa edição equivalente a um livro de bolso que me parece muito prática, com uma revisão cuidada e apenas 158 páginas de discurso escorreito. O leitor é facilmente apanhado nesta torrente de acontecimentos, e iniciado ao núcleo disfuncional e enlouquecedor desta família de um ex-primeiro ministro nacional, onde nada é o que parece, porque tudo é feito ao serviço das aparências.

Um bom retrato da nossa sociedade, das nossas elites, dos nossos silêncios por vergonha e embaraço. Dos nossos muito portugueses e fatais Chius.

Também disponível em e-book.
Classificação: 4/5*****

#221 BARRY, Sebastian. Escritos Secretos

Sinopse: Roseanne McNulty tem perto de cem anos e é a doente mais antiga do hospital de saúde mental de Roscommon. O doutor Grene, o psiquiatra encarregado da avaliação dos pacientes, sente-se intrigado pela história daquela mulher, que passou os últimos sessenta anos da sua vida em instituições psiquiátricas. Enquanto o médico investiga, Roseanne faz uma retrospectiva das suas tragédias e paixões, que vai registando no seu diário secreto, desde a turbulenta infância até ao casamento que lhe prometia a felicidade. Quando o doutor Grene desvenda por fim as circunstâncias da sua chegada ao hospital, é conduzido até um segredo chocante. 

Um livro primorosamente escrito, que narra uma história trágica, fruto da ignorância e mesquinhez, mas ainda assim fortemente marcada pelo amor, pela paixão e pela esperança.

Opinião: Peguei neste romance com entusiasmo, porque une dois dos meus temas favoritos: a Irlanda e os asilos psiquiátricos. A receita tinha tudo para dar certo, e começa firme com um certo misticismo irlandês muito caraterístico, uma queda para a fábula e o sobrenatural muito acentuada. 

Esse, talvez, seja um dos problemas. A narrativa é incongruente: apesar de ser a duas vozes (Roseanne e o seu psiquiatra, William Grene), o ritmo é incerto. Senti que a escrita seguiu muito o estado de espírito do autor - foi a primeira vez que senti algo assim num livro, sobretudo num traduzido, pelo que posso estar muito enganada, mas foi a percepção com que fiquei.

Há pelo menos duas coisas que não têm resposta, ou pelo menos não consegui discerni-la na leitura, e que mancham o aprumo com que o enredo foi montado. Posto isto, a narrativa vale pela Irlanda do século XX, do IRA, da guerra civil, da separação Norte/Sul e da miséria absoluta, bem como do clima agreste e da eterna quezília protestantes/católicos. Achei que o romance falha a vários níveis humanos e narrativos, pelo que não me arrebatou. 

Classificação: 3,5/5*****

PS: Acabo de descobrir que há um filme protagonizado pela minha adorada Rooney Mara

#220 HONEYMAN, Gail, A Educação de Eleanor



Sinopse: Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Opinião: A Educação de Eleanor é o primeiro romance de Gail Honeyman, e, tendo em conta o número de prémios que recebeu, não deve ser o último.
(Ah e adoro, na biografia da autora no Goodreads, a menção a que escreveu o livro enquanto trabalha a Full-time... Ah ah ah ah ah... desculpem, acaba por ser triste.)
Eleanor Oliphant é uma personagem peculiar. Ao longo de 300 páginas, deixamos que nos leve pela mão a uma existência aparentemente normal, mas acabei por sentir que estava a ver o mundo com outras cores, através das lentes especiais da Menina Oliphant. O romance permite-nos aplicar um sentido crítico em eventos banais, em protocolos sociais estabelecidos e que nem nos damos ao trabalho de questionar.
O livro promoveu momentos de comoção, outros de riso e outros de reflexão. Não consegui apaixonar-me por ele tanto quanto outros leitores porque senti que faltou desenvolver melhor o passado de Eleanor. Por exemplo, alguém sugeriu que ela teria Asperger, mas não apanhei nenhuma referência a isso. Houve partes muito angustiantes, e outras que me emprestaram alguma esperança na humanidade.
Em geral, é um page turner que li naquilo que, nesta fase da minha vida, só posso considerar "um tempo recorde". Aconselho! 

Classificação: 4/5*****