Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Castelos de Letras

Em torno das minhas leituras!

Castelos de Letras

Em torno das minhas leituras!

Rayuela - ii





«- A pintura é outracoisa, não é um produto visual – disse Etienne. – Eu pinto com todo o meucorpo, e nesse sentido não sou assim tão diferente do teu Cervantes ou do teuTirso de não sei quantos. O que dá cabo de mim é a mania das explicações, oLogos entendido exclusivamente como verbo.
- Etcétera, disseOliveira, mal-humorado. – Por falar em sentido, a vossa conversa parece umdiálogo de surdos.
A Maga cingiu-se aindamais contra ele. «Agora esta vai dizer alguma das suas asneiradas», pensouOliveira. «Primeiro precisa de esfregar-se, de decidir-se epidermicamente.».Sentiu uma espécie de ternura rancorosa, algo tão contraditório que devia ser apura verdade. «Seria necessário inventar-se a bofetada doce, o pontapé deabelhas. Mas neste mundo as últimas sínteses continuam por descobrir. Pericotem razão, o grande Logos vela. Que pena, fazia falta o amoricídio, porexemplo, a verdadeira luz negra, a antimatéria que tanto dá que pensar aGregorovius.»

cap. 9

Rayuela - i


«A desordem em que vivíamos, isto é, a ordem segundo a qual um bidé se vai convertendo natural e paulatinamente em arquivo de discos e de correspondência por responder, parecia-me uma disciplina necessária, ainda que não quisesse dizê-lo à Maga. Tinha-me levado muito pouco tempo a compreender que não havia por que apresentar a problemática da realidade em termos metódicos à Maga; o elogio da desordem tê-la-ia chocado tanto como a sua denúncia. Para ela não havia desordem, soube-o no mesmo momento em que vi o conteúdo da sua mala (foi num café da rue Réamur, chovia e nós começávamos a desejar-nos), e depois de ter reparado nesse detalhe, eu aceitei-o e favoreci-o; a minha relação com a maior parte das pessoas era feita dessas desvantagens, e quantas vezes, deitado numa cama que não era feita há muitos dias, ouvindo a Maga chorar porque um bebé no metro lhe tinha trazido à memória Rocamadour ou vendo-a pentear-se depois de ter passado a tarde inteira em frente a um retrato de Leonor de Aquitânia e estar morta de vontade de se parecer com ela, me ocorria como um género de arroto mental que esse a-b-c da minha vida era uma penosa estupidez porque se ficava pelo mero dialéctico, pela escolha de uma má conduta em lugar de uma conduta, de uma módica indecência em vez de uma decência gregária. A Maga penteava-se, despenteava-se, voltava a pentear-se. Pensava em Rocamadour, cantava algo de Hugo Wolf (mal), beijava-me, perguntava-me algo sobre o penteado, punha-se a desenhar num papelinho amarelo, e tudo isso era indissoluvelmente ela, enquanto eu ali, numa cama deliberadamente suja, a beber uma cerveja deliberadamente quente, era sempre eu e a minha vida, eu com a minha vida diante dos outros.»

cap. 2